Gestão territorial e combate ao fogo

Mais de 2,4 mil indígenas de duas reservas acrianas, Mamoadate e Katukina/Kaxinawá, são beneficiados com a criação de brigadas de incêndio e ações de monitoramento

© Ramon Aquim / WWF-Brasil
25 de maio de 2020

 

De 9 a 12 de março, 21 lideranças Shanenawa e Huni Kuin se reuniram na aldeia Shane Kaya, na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, para uma capacitação de brigadistas com o objetivo de reforçar as ações de combate ao fogo no território. Localizada em Feijó, município que registrou 1.078 focos de queimadas em 2019 e foi o campeão no estado do Acre, a TI vive sob constante pressão. Além da presença de fazendas de gado no entorno, o fogo é a principal ferramenta usada por ribeirinhos na limpeza de roçados na região. Mas, sem as técnicas adequadas de manejo, muitas vezes as chamas escapam do controle, atingindo áreas vizinhas.

Esse curso faz parte de uma parceria firmada entre o WWF-Brasil e a Comissão Pró-Índio (CPI) do Acre para enfrentar as ameaças crescentes à Amazônia e aos povos da floresta. Os participantes aprenderam a debelar o fogo utilizando equipamentos como abafadores e mochilas costais anti-incêndio, mas também a fazer aceiros e linhas de contenção para impedir que incêndios de fazendas vizinhas invadam a reserva. A expectativa é de que agora eles estejam preparados para lidar com as queimadas que estão por vir.

A proximidade da sede urbana de Feijó e o fato de ser cortada pela BR-364 ampliam as ameaças ao território Katukina/Kaxinawá, que tem 23 mil hectares. Mas os Shanenawa e os Huni Kuin seguem na luta para protegê-lo. Eles sobrevivem da caça, da pesca e do plantio em Sistema Agroflorestal (SAF). A aldeia Shane Kaya é um bom exemplo disso. Entre árvores amazônicas, há culturas como de banana e mandioca. Tanto que o SAF do cacique Ismael Shanenawa, de 35 anos, serviu de laboratório durante o curso de brigadistas, pois as plantações estão no limite da TI. Entre a lavoura e a fazenda de gado vizinha, há apenas um pequeno córrego que fica seco nos meses sem chuva.

O cacique Ismael Shanenawa (de pé) participou de todas as capacitações oferecidas pela parceria entre o WWF e a CPI

© Ramon Aquim / WWF-Brasil

PREOCUPAÇÃO RECENTE

Até pouco tempo atrás, o fogo não estava entre as principais preocupações das populações indígenas do Acre. De acordo com dados da CPI, apenas 0,5% de todas as TIs demarcadas do estado sofreram algum tipo de alteração nos últimos 30 anos, sendo a maioria para abertura de roçados pelos próprios moradores. A expansão do agronegócio para áreas mais preservadas da Amazônia, contudo, tem levado cada vez mais riscos para a floresta.

As mudanças das políticas ambientais tanto pelo governo federal quanto pelo local incentivaram muitos produtores rurais a derrubar novas áreas de floresta e a limpá-las com o uso do fogo acreditando que não seriam punidos. O resultado disso, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi o registro de 6.802 focos de queimadas em 2019 no Acre - um aumento de 2,6% ante 2018. Espera-se que, se nada for feito, o fogo avance ainda mais neste ano.

A Terra Indígena Katukina/Kaxinawá foi homologada pelo governo federal em 1991. Naquela época, não havia ligação rodoviária entre Rio Branco, capital do Acre, e Feijó. Apesar de constar dos mapas, a BR-364 era apenas um caminho de barro entre as duas extremidades do estado mais ocidental da Amazônia Legal. Trafegar por ali era quase impossível. Apenas a partir da segunda metade da década de 1990 a estrada passou a ser pavimentada. Atualmente, já não é mais possível encontrar grandes áreas de floresta nas margens da BR-364, só fazendas de gado.

Essa proximidade do centro urbano de Feijó fez os Shanenawa e os Huni Kuin desenvolverem uma boa relação com os não-índios, inclusive com a permissão de realização de casamentos, e a criarem um projeto de turismo etnoambiental. Nas aldeias mais distantes, o modo de vida tradicional, focado principalmente na agricultura, caça e pesca, está mais preservado. “A floresta é onde nós caçamos, comemos, daqui nós tiramos os remédios para tratar as doenças”, lembra Shuayne, patriarca dos Shanenawa.

© Ramon Aquim / WWF-Brasil
© Ramon Aquim / WWF-Brasil

TECNOLOGIA E CAPACITAÇÃO

Ismael Shanenawa, neto de Shuayne, é uma das lideranças responsáveis por manter e transmitir para as próximas gerações as tradições de sua etnia. Ele participou de todos os cursos realizados no âmbito da parceria com o WWF-Brasil. Além de se tornar brigadista e aprender técnicas de manejo e uso do fogo, em dezembro de 2019 foi um dos integrantes de um treinamento de pilotagem de drones e também teve aulas sobre outras ferramentas de gestão territorial. “Para o nosso povo, é muito importante passarmos por essas capacitações. Nossas aldeias estão muito sujeitas a sofrer com as queimadas. Conhecendo as técnicas corretas para enfrentar o fogo, vamos ter melhores condições de proteger nossas comunidades”, acredita.

O contrato financiou ainda a aquisição de itens como drones, mochilas costais anti-incêndio, abafadores, rastelos, pás e terçados, beneficiando não apenas os cerca de 1,3 mil Shanenawa e Huni Kuin que vivem na Katukina/Kaxinawá como também mais de 1,1 mil das etnias Manchineri e Jaminawa, que moram na TI Mamoadate, no município de Assis Brasil, na fronteira com o Peru. Na primeira semana de março de 2020, 40 integrantes dos povos Manchineri e Jaminawa também se formaram brigadistas. E, em 2019, participaram dos outros treinamentos oferecidos pela parceria.

A tecnologia, em especial o uso de drones, tem se mostrado uma aliada dos povos da floresta. Mashã Huni Kuin, de 48 anos, conta que em um monitoramento de rotina feito pelos indígenas na aldeia Paroá, que fica a 4 horas de barco da sede urbana de Feijó, subindo o rio Envira, foi descoberta uma área significativa devastada. “A gente presenciou um grande desmatamento, já com pasto, bem próximo do limite da Terra Indígena, 92 metros. Isso nos preocupa”, diz ele. 

As pisadas dos bois perto do igarapé onde foi flagrado o desmatamento provoca erosão e o aterramento do manancial, prejudicando o fluxo da água. A pressão adicional é que, com a chegada do “verão amazônico”, o vizinho use fogo para limpar a área e que as chamas atinjam a floresta remanescente. “Isso espanta a nossa caça, vamos ter problema de água porque vai secar o igarapé e os peixes vão acabar. É uma preocupação não só para mim, a gente se preocupa também com a população que está vindo aí, como nossos filhos, sobrinhos, netos”, salienta Mashã.

Para esses povos indígenas, que estavam acostumados a lidar com o fogo apenas para limpar pequenos roçados, agora a ameaça vem de fora e se aproxima cada vez mais. Em regiões como essa, carente de Corpo de Bombeiros, agir de forma rápida e técnica fará toda a diferença para controlar as chamas, evitando que o pior aconteça.

Indígenas analisam mapa de uso da terra durante curso de gestão territorial

© Ramon Aquim / WWF-Brasil