Batalha pela floresta

Expectativa é de que parceria com secretaria municipal de Boca do Acre, no Sul do Amazonas, contribua para combate a queimadas e redução de crimes ambientais

© Izac Theobald / WWF-Brasil
20 de maio de 2020

 

A situação no Sul do Amazonas é um dos exemplos mais claros das ameaças crescentes à Amazônia. A pressão do desmatamento, das queimadas e da grilagem de terras na região, incluindo em Unidades de Conservação e territórios indígenas, é tão comum quanto o amanhecer. Boca do Acre, município de 34 mil habitantes localizado a mais de 1,5 mil quilômetros de Manaus, faz parte desse cenário. Para chegar lá saindo da capital, é preciso percorrer rodovias de três estados - a BR-319 (AM), a BR-364 (RO) e a BR-317 (AC). Ou, então, ir navegando ou de avião.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Boca do Acre responde pela 17a maior área desmatada entre os municípios da Amazônia em 2019: 143 km2. De 2017 para cá, a soma é de 348 km2. Quanto mais a floresta é derrubada, mais o fogo é usado, no tradicional e perverso ciclo de corte e queima no bioma. Também segundo o INPE, o município foi o 4o colocado em focos de queimadas no Amazonas no ano passado: 1.030, 10% a mais do que em 2018. Em todo o estado, houve 12.676 registros em 2019.

Diante do aumento das ameaças a Boca do Acre, o WWF-Brasil firmou contrato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil para fortalecer ações de combate ao fogo, vigilância, fiscalização e gestão territorial. A parceria, efetivada no fim de 2019, possibilitou a aquisição de equipamentos como um barco com motor de popa e capacidade para 12 pessoas, um computador e uma impressora. A ideia é que o órgão coordene também uma brigada de incêndio para atuar já em 2020, no chamado “verão amazônico”, entre junho e outubro.

Para o titular da pasta, Josimar Costa da Silva, parcerias como essa são fundamentais para Boca do Acre ter o mínimo de estrutura para lutar contra queimadas e incêndios florestais. Já que o município, de 21.938,591 km², não conta com batalhão de bombeiros e a unidade mais próxima da corporação fica em Rio Branco, capital do Acre, a 230 km de distância pela BR-317. Como alerta o secretário, a prioridade dos bombeiros é atender ocorrências dentro do próprio estado, e não no vizinho Amazonas.

“A parceria com o WWF contribui para o combate à criminalidade ambiental e para a melhoria da gestão ambiental, com estratégias e ferramentas para que possamos fazer um bom trabalho. Tudo que soma é muito bem-vindo”, afirma Silva. Ele lembra que 2019 foi um ano de muitos desafios. “Era fogo e fumaça para tudo o que era canto, e a gente sem saber o que fazer. Planejamento e combate tinham que ser feitos ao mesmo tempo. Não tinha como dar conta. Éramos eu e mais três meninos batendo abafador e jogando água com bomba costal”, diz.

© Marizilda Cruppe / WWF



 

“A estação chuvosa está acabando e a política de gestão de combate a incêndios não está sendo feita. Primeiro porque o governo federal não emprega esforços para isso. Segundo porque a luta contra a Covid-19 está fazendo com que todo mundo olhe mais para isso”, avalia Josimar Costa da Silva (foto ao lado), secretário Municipal de Meio Ambiente e Defesa Civil de Boca do Acre

DESAFIOS MAIORES EM 2020

Para o secretário, a situação tende a ficar ainda mais grave na Amazônia no período de estiagem. Dados oficiais apontam crescimento nas taxas de desmatamento no começo de 2020. Conforme o sistema Deter, do INPE, entre janeiro e março foram emitidos alertas de desmatamento para uma área de 796 km2 no município, alta de 51% na comparação com o primeiro trimestre de 2019.

Apenas em março de 2020, o desmatamento em Boca do Acre foi de 728 hectares, um impressionante salto de 1.154% ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). A expectativa é de que nos meses de seca as queimadas também batam recorde. “A estação chuvosa está acabando e a política de gestão de combate a incêndios não está sendo feita. Primeiro porque o governo federal não emprega esforços para isso. Segundo porque a luta contra a Covid-19 está fazendo com que todo mundo olhe mais para isso”, avalia o secretário. Os criminosos agradecem.