Concurso Curta Ecofalante: conheça os diretores premiados | WWF Brasil

Concurso Curta Ecofalante: conheça os diretores premiados

22 outubro 2020


Com temáticas e estilos diferentes, eles usam a arte para chamar a atenção aos problemas da sociedade

Por Bruna M. Cenço
 
Em 2015, a ONU lançou um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima, garantindo que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade. Chamadas de Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, essas 17 metas orientaram o Concurso de Curtas da 9ª Mostra Ecofalante de Cinema Socioambiental, que terminou recentemente depois de quase 40 dias e que teve o WWF-Brasil como um dos apoiadores.

Ao todo, 134 filmes de 77 instituições de ensino em 16 estados, representando todas as regiões do Brasil se inscreveram no concurso de curtas universitários deste ano, um recorde para o Festival. Desses, 24 filmes foram selecionados e quatro premiados. São eles: Estado de Neblina, de Bruno Ramos; Hoje Sou Felicidade, de João Luís e Tiago Aguiar; O Verbo Se Fez Carne, de Ziel Karapotó e Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito, de Clea Torres e João Paulo Fernandes. 

Conheça um pouco dos bastidores das obras premiadas em entrevista exclusiva com os diretores, todos estudantes ou recém formados e com várias histórias para contar. Os filmes, para quem quiser assistir, ainda estão disponíveis no site da Mostra.

Hoje sou Felicidade, de João Luís e Tiago Aguiar (20 minutos)

Ganhador do Prêmio de Público, Hoje Sou Felicidade, que retrata a vida do intérprete de escola de samba de Recife Aldir Felicidade, tem como diretores dois veteranos que decidiram trocar suas áreas de atuação para investir na carreira e no sonho de trabalhar com audiovisual. João Luís, acadêmico, e Tiago Aguiar, cuja primeira formação foi o Direito e que diz ter encontrado nas câmeras, em especial nos documentários, uma forma mais eficaz de lutar pelo direito das pessoas do que pelas vias legais.

“A minha frustração é porque era tudo muito bonito na teoria, mas não via os direitos serem constituídos na vida real. A história de Aldir é um exemplo disso. A sua deficiência é fruto da poliomielite e ele só se alfabetizou para memorizar melhor o samba enredo. Ou seja, falta de saúde e de educação. Além disso, vários outros ODS atravessam o filme, como falta de renda, de um meio ambiente saudável e isso reflete no bem-estar da população. O audiovisual é uma maneira de eu tentar exorcizar essa frustração e fazer o que eu queria com o curso de Direito, que é dar uma contribuição à sociedade, à comunidade, promovendo a mudança”, diz Tiago, para quem a história de Aldir Felicidade mostra que "a cultura não acontece apesar das dificuldades, ela é uma forma de combatê-la".

João Luis, parceiro de Tadeu na direção do curta, complementa que esse é outro objetivo do curta: quebrar tabus, inspirando pessoas em situações semelhantes: “Negro, periférico, cadeirante, semianalfabeto e marcado por muitas exclusões sociais simultâneas, Aldir é também um sambista, apaixonado por futebol e católico praticante. O que poderia ser um caldeirão de clichês, era, na verdade, uma pulsão de vida que vi em pouquíssimas pessoas até hoje. Aldir é uma explosão de alegria pelo desafio que coloca a si mesmo: se superar. A cada encontro com ele, eu saía inspiradíssimo!”, diz ele.

Estado de Neblina, de Bruno Ramos (19 minutos)

Do outro lado do país, trocando o sotaque do Recife pelas gírias da periferia de São Paulo e, a realidade pela ficção, Estado de Neblina usa a ideia de uma floresta assombrada para denunciar a falta de presença do Estado, em que jovens vivem à margem da sociedade, sem direito à moradia, ao estudo, à saúde ou a um meio ambiente de qualidade, além do constante medo de algo ruim acontecer. A história, apesar de fictícia, teve como inspiração os ataques de um criminoso em São Paulo, em 2009.

“Na época, eu morava em São Carlos e lembro muito fortemente disso até hoje. Parecia que o mundo tinha parado, tudo fechando cedo, tudo vazio, uma neurose no ar. Posteriormente, a gente soube que em algumas comunidades houve toque de recolher e a presença do chamado esquadrão da morte nas periferias. Para o filme, eu associei essas memórias e coloquei dentro de uma alegoria, em que conto uma história por meio de símbolos, misturando o mundo reconhecível e ao tempo fantasioso. O filme traz essa dualidade, da presença da violência policial em paralelo à ausência do Estado, por meio de políticas públicas”.

Segundo Bruno, a percepção de que o filme, criado para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da faculdade, caberia dentro da temática dos ODS não foi imediata, mas depois percebeu como tudo fazia sentido e era parte de um mesmo guarda-chuva, que o WWF-Brasil engloba como a importância do cuidar.

“Toda essa precariedade existente no curta é parte do ambientalismo. O que acontece na cidade não está separado das ameaças que sofrem os povos indígenas. O que se mostra no noticiário é só uma pequena amostra disso: racismo, chacinas e uma violência que é global. A gente nem tem escolha, é só uma questão de se articular. Ao atingir uma maturidade, a gente percebe a importância de conhecer e aprender com os outros. Ao levantar uma bandeira, levantamos junto um espectro de várias outras causas, de direitos LGBT até a questão da Amazônia. É uma questão ética e moral”, diz.

Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito, de Clea Torres e João Paulo Fernandes (27 minutos)

E, se dentro das cidades a garantia de direitos já é uma dificuldade, o que podemos dizer sobre as populações tradicionais? Os outros dois filmes falam sobre os desafios de ser indígena e manter suas tradições, tanto nas aldeias quanto nas cidades.

Em Território: Nosso Corpo, Nosso Espírito, a dupla de diretores Clea Torres e João Paulo Fernandes, estudantes na Universidade Federal do Mato Grosso e moradores da cidade de Barra do Garça decidiram dedicar seu poder de fala para dar visibilidade à causa indígena, mais especificamente aos direitos da mulher indígena. O documentário, que mistura a cobertura da grande marcha das mulheres indígenas de 2019 com visitas a aldeias Xavante, teve como grande objetivo tentar entender e dar voz às mulheres dentro e fora das aldeias, algo que dificilmente é feito, mesmo por quem costuma cobrir a temática.

O trabalho dos diretores com os Xavante começou em 2015 com um projeto de extensão da faculdade e durou todo o curso de Jornalismo. A proposta era levar oficinas de audiovisual para a comunidade, para que os indígenas pudessem se expressar por si próprios.

“Este foi meu primeiro contato com a aldeia Xavante, mas que continua até agora. Durante todo este período, Clea e eu fomos várias vezes à aldeia, mas quase sempre que fazíamos uma visita, a primeira recepção era por um homem e, mesmo depois, a maior parte do nosso contato era com eles. As mulheres ficam mais reclusas, como que protegidas. Especialmente comigo, por ser homem, havia um tempo até que elas se sentissem confortáveis para que eu me aproximasse para gravá-las”, conta João Paulo.

As idas constantes às comunidades fizeram com que Clea e João estabelecessem uma amizade com o povo e desenvolvessem diferentes trabalhos com a população local, a maioria deles ainda voltados para o mundo masculino. A ideia do documentário surgiu após uma grande reportagem para o Instituto Vladimir Herzog que os dois fizeram sobre as violências sexuais que meninas e mulheres Xavante vivenciam.

“A partir dessa reportagem, comecei a querer me aprofundar mais e mais no universo feminino das aldeias. Posteriormente, fui convidada pela Funai para participar e relatar os Encontro das Mulheres Indígenas e foi quando percebi que não era justo com uma cultura tão rica reduzi-la a um retrato de violência. As mulheres Xavante me ensinaram muito. Percebi que, enquanto mulher não indígena, a gente vai se fechando em um universo onde acreditamos que a liberdade de todas as mulheres deveria ser como a nossa e é muito mais complexo do que isso”, comenta Clea.

O Verbo Se Fez Carne, de Ziel Karapotó (6 minutos)

No grande vencedor do concurso de curtas, O Verbo Se Fez Carne, o diretor Ziel Karapotó, indígena da comunidade Karapotó de Terra Nova, no estado do Alagoas, foi também o protagonista do vídeo. Em apenas 6 minutos, ele traz, por meio de uma performance corporal, uma forte crítica às consequências dos mais de 500 anos de colonização aos indígenas, em que suas tradições são cada vez mais ameaçadas e suprimidas pelos hábitos do homem branco, provocando uma perda de tradições ou, no mínimo, uma simbiose de culturas.

Ziel conta que nasceu e foi criado em uma comunidade com apenas 2 mil habitantes, cuja cacique além de ser uma mulher, algo extremamente incomum para os indígenas, é sua tia Rosicleide, ou Neide, como é chamada. O contato com o audiovisual se deu no Ensino Médio. Depois de uma oficina de vídeo arte, ele começou a pesquisar e resolveu fazer artes visuais. Em 2015, saiu de sua comunidade para começar a estudar em Recife, na Universidade Federal de Pernambuco.

“Quando cheguei em Recife não conhecia ninguém. Cheguei com medo. A Academia não tem referência de povos originários. Por isso, nos seis primeiros meses fiquei sem dizer que eu era indígena. A partir do momento que eu comecei a externalizar o que estava sentindo, percebi que eu poderia utilizar a minha história para produzir. Percebi que a visão eurocêntrica das comunidades tradicionais só reforça esse etnocídio secular. Comecei a pensar o que fazer e olhei para mim mesmo. Pensei ‘vou usar o que eu tenho, o meu corpo, pegar essa experiência expressiva dos povos originários do Nordeste, uma bagagem que trago do meu povo, da nossa história’ e assim comecei a criar as performances”, diz Ziel.

Já o tema do filme foi baseado em uma experiência real e recente, de quando voltou para sua cidade, no meio do ano letivo, e encontrou cinco novas igrejas evangélicas em uma mesma vila: “O que mais me chocou é que muitos dos meus parentes estavam deixando de praticar a nossa tradição para serem evangelizados. Então, falei com outros indígenas da faculdade e percebi que este é um movimento cada vez mais comum. É a história se repetindo, como houve com o processo da catequização. Os instrumentos coloniais se atualizam. Eu mesmo fui catequizado pela Igreja Católica”, comenta Ziel, contando que, na sua comunidade, as pessoas fundiram a religião dos brancos e as tradições antigas. “O filme mostra esses dois lados: a força da colonização, mas que há uma forma de resistência”, completa.
 
Desejos e próximos passos

Segundo todos os diretores, o concurso de curtas da Mostra Ecofalante trouxe uma visibilidade importantíssima para os filmes e para as causas retratadas. Isso, esperam, pode ajudar na captação de recursos para viabilizar próximos trabalhos, alguns em concepção, outros já em andamento. Além disso, o processo trouxe benefícios adicionais, por vezes impensados:

Para Ziel, a elaboração de suas performances o fez conhecer uma rede de cinema independente indígena, que ele busca fortalecer cada vez mais, para que os representantes das populações tradicionais possam expressar sua própria voz. Um exemplo simples da diferença que isso pode fazer foi a escolha das vestimentas que ele usa no vídeo, que são características da sua tribo Karapotó e que busca mostrar um pouco mais da sua cultura, dos povos tradicionais do Nordeste, já que, segundo ele, o imaginário que temos dos indígenas costuma ser somente aquele das comunidades amazônicas.

“Se eu nunca tivesse saído da minha aldeia. eu não teria esse olhar dessa grande diversidade de povos. Eu nem sabia que que existia indígena nas cidades. Parece que a gente é colocado numa bolha”, diz.

A aproximação da cultura dos povos tradicionais pelo homem branco também é o desejo de Clea e João Paulo. Segundo eles, as pessoas que moram longe das comunidades, como Rio de Janeiro ou São Paulo, costumam ser mais propensas à causa indígena do que quem mora nas cidades próximas às aldeias e isso tem muito a ver com a falta de conhecimento.

“Meu objetivo com o cinema é desmitificar a cultura do indígena, diminuindo aquele estereótipo de que eles não fazem nada, de que são vagabundos, que é o que muitas pessoas ainda acreditam. Há algum tempo, conseguimos viabilizar uma exibição de alguns dos nossos documentários no cinema da cidade, mas de forma gratuita, sem cobrar ingresso. A gente achou que não ia dar público, mas deu certo. Alguns nem tinham interesse em ver o filme, mas como era de graça, foram. Essa mudança é importante, mesmo que seja por passinhos, um vídeo aqui, uma conversa em uma roda de bar ali. É importante que os indígenas também tenham acesso à cultura e ao ensino. Hoje, a maioria dos indígenas vai fazer faculdade particular porque não tem acesso, mas, aos poucos, a gente tem notado uma diferença”, diz João.

Continuar trabalhando com a temática indígena, dando voz especialmente a essas mulheres que tanto a ensinaram também é o desejo de Clea. “As mulheres Xavante me mostram constantemente que a liberdade delas está na conquista coletiva. Essa liberdade está presente na segurança alimentar da família, porque ela planta arroz, mandioca e outros alimentos. Está no seu direito de residir no território, no conhecimento passado de mãe pra filha, de avó pra neta, que viram segredo das mulheres e os homens não podem saber. Até hoje paro para refletir em tudo o que elas me passaram”, diz.

De volta às cidades, o desejo de Bruno é que mais jovens pudessem ter acesso a fazer cinema, tendo a possibilidade de retratar as suas visões da realidade e fazer suas vozes serem ouvidas: “o audiovisual precisa ser parte do currículo desde o ensino fundamental A gente precisa ler o mundo através imagens. Ao entenderem isso, os jovens ganham mais poder. É uma forma importante de luta pelos direitos”, comenta.

E essa vontade de levar a arte e a cultura para mais pessoas também foi o resultado da experiência de João e Tiago após o filme Hoje Sou Felicidade. Segundo eles, com o documentário foi possível conhecer diferentes comunidades e histórias. Por exemplo: quando se fala em Recife se pensa em maracatu, em frevo, não em samba. Mas na pesquisa os dois descobriram que o samba, como decorrência das religiões africanas, em especial do candomblé, é mais ou menos tão antigo quanto esses outros movimentos.

“Hoje Sou Felicidade me deu a certeza do que eu quero realizar como cineasta: contar histórias que levem cores às pessoas, contribuindo, de alguma forma, para a desconstrução do discurso social hegemônico, que subestima as pessoas por elas terem alguma limitação física, ou por serem negras, LGBT ou qualquer outra minoria social”, diz João.

“Eu acredito que fazer cinema muda um pouco a realidade. Eu fui provilegiado por poder largar tudo e viver de cultura. Gostaria que todas as pessoas pudessem ter esse privilégio. Como diz Paulo Freire, ‘a educação não muda o mundo, mas a educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo’”, completa Tiago.

Assista!

Quatro filmes, cada um com uma temática ou uma causa, todos com o mesmo objetivo: usar a arte, a cultura e a educação para trazer uma mudança, mesmo que pequena. Contribuir com a valorização da cultura dos povos tradicionais, diminuir o preconceito, aumentar a presença do Estado nas periferias e locais isolados, ampliar o acesso à cultura e aos direitos fundamentais são alguns dos desejos desses jovens diretores, que graças ao apoio da escola, faculdade, patrocínios ou leis de incentivo conseguiram fazer as suas vozes e as de seus personagens ouvidas.

Assista a estes pequenos vídeos com os próprios diretores contando sobre suas obras. Se preferir, vá direto ao site da mostra Ecofalante e veja cada um dos curtas. Os links estão ao lado.
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