Pesquisadores encontram espécies que podem ser novas para a ciência | WWF Brasil

Pesquisadores encontram espécies que podem ser novas para a ciência



27 Junho 2006
Sapo cururu é uma das espécies encontradas na região
© WWF-Alemanha / Michael EVERS
Por Ana Cíntia Guazzelli e Cláudio Maretti

Uma espécie desconhecida de copaíba, duas de pererecas, dois peixes diferentes, um novo registro para primata e uma ave de ocorrência na caatinga e no cerrado, que ainda está sendo descrita. Este foi o saldo preliminar das pesquisas de campo realizadas de um a três dias por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável (SDS-AM), nas unidades de conservação do sul do estado, que compõem o Mosaico do Apuí, onde a Expedição Juruena-Apuí realiza sua terceira e última fase. Hoje à noite, estes cientistas se reuniram com os quatro pesquisadores que acompanham a expedição e com seus integrantes, para trocas de impressões e informações, na localidade de Terra Preta, junto ao rio Sucunduri, estado do Amazonas.

A ocorrência de algumas espécies de plantas e animais endêmicas (típicas da região) já era esperada pela maioria dos pesquisadores na área visitada. Isso porque a região tem ambientes particulares para a Amazônia, tanto por ser transição de biomas, como por ter vários ambientes definidos por limites do substrato e do solo. Além disso, quase não sofre pressão humana o acesso é difícil e principalmente por ela ter sido até o momento pouquíssimo estudada.

O biólogo Fabiano Waldez, da Rede de Conservação do Amazonas, da Secretaria Executiva Adjunta de Programas Especiais (Seape), da SDS-AM, está responsável pela pesquisa de sobre os anfíbios e répteis. Em quatro dias de trabalho, ele encontrou 11 espécies de lagartos, 1 de jacaré e 16 de sapos, no geral comuns. Dois destes, entretanto, ainda desconhecidos por ele. “A área é promissora”, garantiu. O que mais impressionou Fabiano foi o tamanho do jacaré-pedra Paleosuchus trigonatus encontrado. “Dificilmente vemos estes animais com mais idade, isto porque, em geral, são caçados ainda jovens. Aqui é diferente”, disse.

Já Charles Zartman, pesquisador de botânica do Inpa, com sua equipe, coletou uma espécie de copaíba Copaifera sp. que aparentemente é nova: “ninguém da equipe soube identificar”, afirmou. Foi Sebastião Salvino de Souza quem chamou a atenção dos demais. Charles ressaltou ainda que 60% das espécies de plantas encontradas na vegetação denominada campinarana e na terra firme da área estudada puderam ser identificadas. Eles amostram tudo, mas “os outros 40 % precisarão das coletadas para serem analisadas e identificadas”, explicou.

O rio Sucunduri também se apresentou riquíssimo em espécies de peixes, segundo a pesquisadora Lúcia Happ. Ela desconhece duas das várias coletadas e garantiu que ficou impressionada com a falta de presença humana. “Foi a área mais remota que já trabalhei. Parece que não tem nenhuma pressão antrópica. A área é extraordinária e possui um potencial fantástico”. O rio Sucunduri está praticamente todo dentro da área protegida.

Para o ornitólogo Mário Kohn-Haff, do Inpa, apesar da coleta de uma ave que ainda está sendo descrita, Herpsilochmus selloe, e que ocorre geralmente na caatinga e no cerrado, a região não guarda grandes novidades com relação aos passarinhos. “A diversidade de aves aqui é baixa, pelas próprias características de grande variabilidade de ambientes, sem espaço suficiente, e pela não ocorrência de florestas amazônicas mais densas e típicas. Não espero grandes surpresas”, disse. Ele acredita que o relevo acidentado encontrado entre as bacias dos rios Tapajós e Madeira pode ser uma barreira natural para as aves, sendo que aquelas que ocorrem em uma bacia, não necessariamente aparecerão na outra.

O pesquisador de primatas autônomo, Maurício de Almeida Noronha, assim como Mário, também esperava que a serra do Sucunduri fosse um divisor para a fauna de micos, o que tem sido confirmado até agora. Ele identificou nesta etapa de campo o primeiro registro de uma espécie para o Amazonas, o mico (sagüi) Mico melanuro (que já foi descrito no Centro-Oeste e países vizinhos) e o 3º registro ao sul do rio Amazonas para o macaco-aranha (que tem cara preta, com triângulo vermelho no nariz e na boca) Ateles chameki.

Cachoeira de Monte Cristo

Os pesquisadores que vêm desde Mato Grosso fizeram suas próprias incursões por esta área do mosaico do Sucunduri. A área mais especial identificada foi a corredeira de Monte Cristo. Considerado local de grande concentração de animais, eles não esperavam tanta diversidade e tanta quantidade. Avistaram várias antas, catetos, e revoadas de psitacídeos, ou "aves de bico torto", como muitos chamam.

Terra Preta

A corredeira Monte Cristo fica a cerca de 2,5 horas subindo o rio Sucunduri, a partir da localidade de Terra Preta. Esta, na verdade, é uma sede de uma ocupação, não legalizada, com vínculos com interesse minerário. Aqui estabelecemos nosso acampamento por vários dias.
Sapo cururu é uma das espécies encontradas na região
© WWF-Alemanha / Michael EVERS Enlarge
Aratingas na cachoeira Monte Cristo
© ICV / Gustavo IRGANG Enlarge
Acampamento em Terra Preta
© Claudio Maretti / WWF-Brasil Enlarge
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