União amazônica: países definem estratégia regional para proteger botos contra crises climáticas

[news_posted_on] September, 21 2026

Com apoio do WWF-Brasil, iniciativa regional reúne especialistas de seis países para estruturar protocolos de emergência e transformar recomendações científicas em instrumentos de política pública. Os resultados desse esforço serão apresentados no webinar "Uma resposta regional para proteger os golfinhos de rio diante da seca extrema", que acontece em 24 de setembro e marca a construção do toolkit regional para resposta a eventos de mortalidade de golfinhos de rio.

Por Priscila Pacheco, especial para o WWF-Brasil.

Transformar perdas graves para a fauna em uma estratégia robusta de preparação para o futuro. Com esse objetivo, especialistas, governos e organizações de seis países amazônicos vêm trabalhando conjuntamente no desenvolvimento de instrumentos para fortalecer a resposta regional aos impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas aquáticos. Um dos marcos desse processo foi a Oficina Regional SARDI & ASL – Gestão e Adaptação de Protocolos e Instrumentos de Política Pública durante Eventos de Mortalidade Incomum de Golfinhos de Rio, realizada em maio deste ano em Manaus, que contribuiu para a construção do toolkit regional.

A iniciativa foi conduzida tecnicamente pelo WWF-Brasil, no âmbito da South American River Dolphin Initiative (SARDI), em parceria com o Amazon Sustainable Landscapes (ASL), um programa GEF (Global Environmental Fund) liderado pelo Banco Mundial, contando com o apoio do ICMBio e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), e reuniu especialistas, governantes e pesquisadores de Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

Daniel Sumalavia, consultor do programa de coordenação regional do ASL, ressalta a importância estratégica dessa união institucional: “Espaços de articulação regional como o que estamos desenvolvendo junto ao SARDI são fundamentais, porque os impactos das mudanças climáticas sobre a bacia amazônica afetam toda a região. O encontro realizado em Manaus foi uma demonstração concreta do valor de reunir representantes de diferentes países para compartilhar lições aprendidas e integrar diferentes perspectivas na gestão e conservação dos ecossistemas amazônicos”.

Mariana Frias, analista de conservação do WWF-Brasil e coordenadora da SARDI, reforça que a atuação da organização busca uma abordagem que conecte todos os atores da bacia: “A solução passa pela difusão ampla do conhecimento, a discussão das melhores abordagens da perspectiva das ciências acadêmica e tradicional, dos saberes e cultura local e das transformações impactantes na paisagem. O papel do WWF-Brasil é assegurar que todas essas perspectivas sejam levadas em consideração e que, além da sociedade civil, órgãos públicos estejam incluídos e ativamente participantes, garantindo a estratégia multissetorial, multi-institucional e multiescalas”.

O eco de uma tragédia

A urgência do encontro remete aos eventos de 2023, quando a Amazônia enfrentou uma seca histórica e ondas de calor extremas, intensificadas pelo fenômeno El Niño. Nos lagos Tefé e Coari, as águas atingiram a marca fatal de 39,1°C, resultando na morte de pelo menos 330 botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) e tucuxis (Sotalia fluviatilis).

Para os cientistas, o que ocorreu foi um alerta global: pela primeira vez, o calor extremo da crise climática matou mamíferos aquáticos dessa forma. Ingrid Maria Furlan Oberg, analista ambiental do ICMBio, destaca que o episódio revelou uma combinação fatal de fatores, como o aquecimento da água acima dos limites toleráveis, a seca extrema que isolou animais em áreas rasas e a baixa concentração de oxigênio. “Em alguns locais, a água ultrapassou o que é suportável para os botos, causando um estresse térmico severo nessas espécies, que são altamente sensíveis a variações ambientais rápidas e funcionam como sentinelas da saúde dos rios”, avalia a especialista.

Naquela crise, a principal hipótese para as mortes foi de que o estresse térmico tenha afetado a capacidade dos animais de regular a temperatura corporal, resultando em colapsos cerebrais. A vulnerabilidade dessas espécies a novos padrões climáticos é um dos pontos focais para o monitoramento futuro.

Para Hilda Chávez, pesquisadora do Instituto Mamirauá, o evento de 2023 foi um divisor de águas na compreensão dos limites de sobrevivência dessas espécies. “Os golfinhos de rio amazônicos são bem adaptados às condições e variações sazonais da região. No entanto, o cenário de 2023 expôs os botos a mudanças drásticas na termoclina diária, à péssima qualidade do ar e à redução de seu habitat aquático. Essa combinação de fatores interrompeu e alterou seus sinais adaptativos, deixando-os sujeitos a estresse térmico e culminando em uma fatalidade sem precedentes”, explica a pesquisadora.

 

Estratégia regional para antecipar crises

A construção da estratégia regional reuniu representantes de seis países amazônicos para discutir como fortalecer a preparação e a resposta a eventos extremos que afetam os golfinhos de rio. As discussões concentraram-se em três frentes principais: coordenação institucional para emergências, protocolos técnicos de resposta e monitoramento de indicadores ambientais capazes de antecipar situações de risco.

Entre os avanços debatidos estiveram o fortalecimento de sistemas de alerta precoce, a padronização de procedimentos de campo e o uso de novas ferramentas de monitoramento, incluindo soluções desenvolvidas em parceria com o MapBiomas Água para acompanhar alterações na temperatura da água e na dinâmica dos ambientes aquáticos.

Durante os diálogos, especialistas identificaram desafios comuns em toda a região amazônica, como a dificuldade de atuação em áreas remotas, a necessidade de recursos especializados e a importância de ampliar a integração entre órgãos públicos, cientistas e comunidades locais.

A integração dessas diferentes capacidades é considerada essencial para uma resposta eficiente aos impactos das mudanças climáticas. Para María Jimena Valderrama, médica veterinária e membro da equipe de reabilitação de mamíferos aquáticos da Fundación Omacha, a resposta a eventos extremos depende de uma articulação permanente entre ciência, comunidades e tomadores de decisão.

“A resposta efetiva a eventos extremos exige uma articulação permanente entre ciência, comunidades e tomadores de decisão. O monitoramento científico fornece informações sobre variáveis ambientais e saúde dos animais, enquanto as comunidades locais e indígenas geralmente são as primeiras a detectar mudanças incomuns nos ecossistemas e a reportar eventos de mortalidade ou risco” explica Valderrama.

A definição de quais sinais monitorar deve ser um dos pilares de uma ação regional coordenada. Hilda relata que o Instituto Mamirauá identificou três grupos de indicadores essenciais para antecipar situações de risco: ambientais (temperatura da água, ar e níveis hídricos), biológicos (comportamento e taxas de mortalidade) e sociais. “Comunidades locais como indicadores: é essencial manter redes de apoio e comunicação com as comunidades ribeirinhas permitindo a expansão de um sistema de alerta precoce em uma região tão vasta quanto a Amazônia", enfatiza Hilda, reforçando que o olhar das populações tradicionais é o que permite a capilaridade da vigilância ambiental no território.

 

Compromisso para além das fronteiras

Um dos grandes desafios discutidos foi o fato de os grandes sistemas fluviais não reconhecerem limites políticos. A cooperação entre fronteiras é essencial para garantir que os esforços de um país não sejam anulados pela falta de ação no vizinho.

A Colômbia e a Venezuela, por exemplo, trouxeram experiências valiosas de resgate com forte participação comunitária. A proposta da iniciativa é que essas lições aprendidas em diferentes rios amazônicos ajudem a fortalecer a adaptação de toda a região às mudanças climáticas.

As discussões abordaram a conectividade regional e a articulação entre redes e iniciativas de conservação na Amazônia, explorando oportunidades de cooperação entre mecanismos de governança como a OTCA, a Aliança Águas Amazônicas e a Convenção de Ramsar. Também foram debatidos caminhos para replicação dos conhecimentos compartilhados, fortalecimento de redes de especialistas e ampliação da coordenação regional para apoiar protocolos e respostas a emergências envolvendo botos de rio.

A experiência da Fundación Omacha em diversos rios da bacia reforça que a crise climática não atinge apenas os cetáceos, mas todo o sistema de manutenção da vida na Amazônia. “Eventos climáticos extremos estão aumentando tanto em frequência quanto em intensidade. As secas prolongadas reduzem a conectividade entre habitats, diminuem a disponibilidade de alimento e favorecem o isolamento de populações. O que afeta os golfinhos também impacta peixes, tartarugas, peixes-boi e as comunidades humanas que dependem desses sistemas aquáticos”, alerta María Jimena. Segundo ela, a cooperação entre fronteiras é fundamental, já que os impactos ambientais ignoram limites cartográficos.

 

Do diálogo à ação regional

Os debates e recomendações construídos ao longo da oficina contribuíram para o desenvolvimento de um toolkit regional voltado à preparação e resposta a eventos extremos que afetam os golfinhos de rio e outros organismos aquáticos da Amazônia. O material reúne orientações práticas para monitoramento, alerta precoce, coordenação institucional e resposta emergencial, incorporando experiências e conhecimentos compartilhados pelos países participantes.

A descrição oficial da ferramenta acontecerá durante o webinar "Uma resposta regional para proteger os golfinhos de rio diante da seca extrema", no próximo dia 24 de setembro às 11hrs (horário de Brasília). O encontro reunirá representantes da South American River Dolphin Initiative (SARDI), do Amazon Sustainable Landscapes (ASL), governos e organizações parceiras para apresentar os principais resultados dessa construção coletiva e discutir estratégias para fortalecer a adaptação da região aos impactos das mudanças climáticas.

Data: 24 de setembro às 11hrs (horário de Brasília)
Idiomas: tradução simultânea em português, espanhol e inglês
Inscrições: https://wwfus.zoom.us/webinar/register/WN_LXu35Z-sS1iRKVe9ccxuZg#/registration

 

Da pesquisa à política pública

A resposta rápida no evento de 2023, que contou com o apoio logístico e material do WWF-Brasil, revelou a necessidade de protocolos permanentes. Como legado prático dessa crise, o ICMBio e o INPA construíram um Guia para emergências com mamíferos aquáticos amazônicos em situações de seca extrema, visando nortear futuras respostas na região. “A atuação em equipe e a instalação rápida de um Sistema de Comando de Incidente (SCI) foram fundamentais para o atendimento à emergência e a identificação dos fatores de mortalidade”, considera Ingrid.

Agora, somando também os insights gerados pelos diálogos da oficina, o WWF-Brasil e seus parceiros trabalham na estruturação de recomendações e protocolos técnicos que poderão auxiliar governos e instituições no fortalecimento de políticas públicas nacionais. O objetivo é que esses subsídios sejam úteis para aprimorar a proteção dos habitats e possam, futuramente, embasar discussões estratégicas em fóruns globais, como a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), visando uma resposta regional mais resiliente e integrada

Ao analisar os requisitos para uma governança regional resiliente, Sumalavia aponta as prioridades e os desafios para os próximos anos: “A proteção dos golfinhos de rio é um termômetro da nossa capacidade coletiva de adaptação às mudanças climáticas. Uma resposta regional efetiva requer sistemas de monitoramento articulados e protocolos eficazes de atendimento a emergências. Para avançar, será fundamental fortalecer as redes entre atores e instituições, incorporar o conhecimento indígena e local e contar com ferramentas práticas que permitam aos países estarem mais preparados diante de futuros eventos extremos”, enfatiza o especialista.

Para o WWF-Brasil, o compromisso é garantir que os botos continuem nadando nos rios da Amazônia, servindo como o termômetro de um bioma saudável para a natureza e para as pessoas.

Iniciativa regional reúne especialistas de seis países para estruturar protocolos de emergência e transformar recomendações científicas em instrumentos de política pública.
Iniciativa regional reúne especialistas de seis países para estruturar protocolos de emergência e transformar recomendações científicas em instrumentos de política pública.
© Giselli Nascimento / Vallie
“A proteção dos golfinhos de rio é um termômetro da nossa capacidade coletiva de adaptação às mudanças climáticas," Daniel Sumalavia, consultor do programa de coordenação regional do ASL.
© WWF-Brasil / Adriano Gambarini
Com apoio do WWF-Brasil, iniciativa regional reúne especialistas de seis países para estruturar protocolos de emergência e transformar recomendações científicas em instrumentos de política pública.
Com apoio do WWF-Brasil, iniciativa regional reúne especialistas de seis países para estruturar protocolos de emergência e transformar recomendações científicas em instrumentos de política pública.
© Giselli Nascimento / Vallie
A urgência do encontro remete aos eventos de 2023, quando a Amazônia enfrentou uma seca histórica e ondas de calor extremas, intensificadas pelo fenômeno El Niño
A urgência do encontro remete aos eventos de 2023, quando a Amazônia enfrentou uma seca histórica e ondas de calor extremas, intensificadas pelo fenômeno El Niño
© Elise Dalmaso / Vallie
Os resultados desse esforço serão apresentados no webinar
Os resultados desse esforço serão apresentados no webinar "Uma resposta regional para proteger os golfinhos de rio diante da seca extrema"
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