WWF-Brasil lança nota técnica que estima impacto econômico da Moratória da Soja

[news_posted_on] July, 31 2026

Estudo mostra que a Moratória da Soja já gerou mais de US$ 10 bilhões em benefícios econômicos para o Brasil e que seu enfraquecimento pode provocar perdas de pelo menos US$ 8,2 bilhões na próxima década

Por WWF-Brasil

O WWF-Brasil acaba de lançar a nota técnica "Estimativa do Valor Econômico Oferecido à Sociedade Brasileira pela Moratória da Soja por Meio da Conservação da Floresta Amazônica", um estudo que reúne evidências científicas para demonstrar que conservar a floresta é uma estratégia de desenvolvimento econômico.
 
A nota sistematiza pesquisas científicas revisadas por pares para estimar, pela primeira vez de forma integrada, o valor econômico gerado pela conservação da floresta promovida pela Moratória da Soja. Além disso, analisa os impactos econômicos, jurídicos e socioambientais que podem resultar do enfraquecimento desse mecanismo de governança.
 
A publicação também destaca o caráter inovador do mecanismo como solução climática. "Nas últimas duas décadas, a Amazônia brasileira esteve no centro de um dos mais relevantes experimentos globais de ação climática voluntária e coordenação entre poder público, mercado e sociedade civil para a redução do desmatamento associado à expansão agropecuária", informa o texto.  
 
Criada em 2006, a Moratória da Soja, à qual a nota se refere, é um compromisso voluntário firmado entre empresas do setor, organizações da sociedade civil e governo para impedir a comercialização de soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008. Ao longo de quase duas décadas, o acordo tornou-se um dos principais instrumentos de combate ao desmatamento associado à expansão da soja, atuando de forma complementar às políticas públicas de fiscalização e controle. 
 
Segundo a nota técnica, estudos científicos indicam que a Moratória foi responsável por evitar diretamente a perda de aproximadamente 1,8 milhão de hectares de floresta entre 2006 e 2016, sem impedir o crescimento da produção de soja na Amazônia, que mais do que triplicou no período ao ocupar principalmente áreas já abertas.

O valor econômico da floresta em pé

A publicação, coordenada por Tiago Reis, líder de estratégia de mercados livres de desmatamento e conversão e Danilo Farias, Líder de litigância nacional, ambos do WWF-Brasil, parte de uma pergunta central: quanto vale, para a economia brasileira, a floresta preservada pela Moratória da Soja?
 
Para responder a essa questão, os autores analisaram três serviços ecossistêmicos essenciais proporcionados pela floresta amazônica:
  • Manutenção do regime de chuvas que sustenta a agricultura brasileira; 
  • Contribuição para a geração de energia hidrelétrica; 
  • Preservação da biodiversidade e do patrimônio genético. 
 
A integração dessas evidências mostra que a preservação de 1,8 milhão de hectares protegidos pela Moratória gerou mais de US$ 10 bilhões em benefícios econômicos diretos entre 2006 e 2016. Desse total, aproximadamente US$ 9 bilhões estão associados à conservação da biodiversidade, US$ 1,07 bilhão à manutenção das chuvas que beneficiam a agricultura e cerca de US$ 200 milhões à geração de energia hidrelétrica. 
 
Os autores destacam que esses valores representam uma estimativa conservadora, pois não incluem outros benefícios relevantes da floresta, como o armazenamento de carbono, a regulação climática global, os impactos sobre a saúde pública e diversos serviços ecossistêmicos que ainda não puderam ser monetizados.

O risco de uma legislação que penaliza a conservação da Amazônia

Além de avaliar o legado do acordo, a nota apresenta projeções sobre os impactos de sua eventual descontinuidade, tema que está no centro do debate ambiental, pois, apesar dos resultados expressivos para a conservação da Amazônia e para a economia brasileira, a Moratória vem sendo enfraquecida por legislações estaduais que restringem benefícios fiscais a empresas comprometidas com o combate ao desmatamento. 
 
Recentemente, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins aprovaram leis que restringem benefícios fiscais a empresas que assumem compromissos voluntários de combate ao desmatamento e de ação climática. Na prática, as novas normas penalizam empresas que adotam medidas para proteger a Floresta Amazônica e sua biodiversidade, criando um precedente inédito ao desestimular iniciativas privadas de conservação ambiental, apesar de serem legais e alinhadas aos objetivos constitucionais de proteção ao meio ambiente. 
 
Com base em um estudo científico que projeta cenários para os próximos dez anos, a nota estima que um eventual fim da Moratória poderá resultar em 1,4 milhão de hectares adicionais de desmatamento na Amazônia até 2036. 
 
Esse cenário representaria perdas econômicas diretas de pelo menos US$ 8,2 bilhões, considerando apenas três dimensões analisadas: redução das chuvas que abastecem a agricultura (US$ 831,6 milhões), impactos sobre a geração de energia hidrelétrica (entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões) e perdas associadas à biodiversidade amazônica (US$ 7 bilhões).
 
Segundo os pesquisadores, esses números demonstram que a floresta em pé gera riqueza para diversos setores da economia e que sua conservação reduz riscos para atividades estratégicas, como a produção agrícola e o setor elétrico.

Riscos para a competitividade do Brasil

Na avaliação do WWF-Brasil, além dos impactos ambientais, o enfraquecimento da Moratória pode gerar insegurança jurídica, ampliar riscos econômicos e prejudicar a competitividade internacional do agronegócio brasileiro. 
 
O estudo destaca ainda que a saída de empresas do acordo já provocou reações de grandes varejistas internacionais e ampliou a preocupação de mercados consumidores com a rastreabilidade e o desmatamento nas cadeias de produção da soja. 
 
Ao reunir evidências científicas, econômicas e jurídicas, a publicação reforça que mecanismos voluntários de governança ambiental podem atuar de forma complementar às políticas públicas, contribuindo para reduzir o desmatamento sem comprometer a expansão da produção agrícola.
Cultivo de soja no Cerrado impulsiona agronegócio brasileiro a um alto custo socioambiental
© WWF-UK
O bioma Cerrado já perdeu quase metade de sua vegetação nativa para ocupação de commodities, entre elas, a soja
© WWF-UK
A moratória já contribuiu, direta e isoladamente, para a preservação de 1,8 milhão de hectares de Floresta Amazônica entre 2006 e 2016 (Heilmayr, 2020)
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
Além de contribuir para a redução do desmatamento, a Moratória da Soja preservou ativos estratégicos da ordem de US$ 900 milhões por ano em valor de biodiversidade, segundo a nota técnica
© André Dib / WWF-Brasil
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