Em Apiacás (MT), WWF-Brasil une conservação e produção rural | WWF Brasil

Em Apiacás (MT), WWF-Brasil une conservação e produção rural



28 Maio 2012   |  
Produtores rurais de Apiacás durante uma das etapas do curso de Sistemas Agroflorestais em Apiacás (MT)
Produtores rurais de Apiacás durante uma das etapas do curso de Sistemas Agroflorestais em Apiacás (MT)
© Mapsmut / Ayslaner Gallo
Por Jorge Eduardo Dantas

A produção de seis toneladas de melancia e 1 tonelada de abóbora em apenas nove meses de trabalho, no espaço de meio hectare de terra, é um dos mais expressivos e importantes resultados do projeto Sistemas Agroflorestais em Apiacás, desenvolvido no norte do Mato Grosso pelo WWF-Brasil. O produtor-ponto focal deste trabalho, Daniel Lorestes da Silva, 46, obteve uma renda de R$ 6,4 mil com esta produção e já comemora o retorno do investimento feito em sua propriedade.

O projeto Sistemas Agroflorestais em Apiacás teve início em junho de 2011 e seu objetivo foi divulgar, naquela região, os benefícios dos sistemas agroflorestais (SAF’s) em regiões tropicais. Para alcançar esta meta, o WWF-Brasil investiu na construção de um modelo demonstrativo, que pudesse servir de exemplo aos produtores rurais da área, e na realização de um treinamento técnico em sistema agroflorestais, cujo objetivo foi capacitar os agricultores locais a trabalhar e lidar, na prática, com este conceito.

Os sistemas agroflorestais (SAF’s) são considerados soluções sustentáveis para a agropecuária nas regiões tropicais. Eles são caracterizados pela associação de árvores, arbustos, cultivos agrícolas e possível criação de animais de maneira simultânea ou em intervalos de tempo regulares num só local.

Com a presença de várias espécies diferentes num mesmo perímetro, o SAF reproduz o ecossistema florestal e reduz os danos ambientais às árvores e aos solos da região em que é implantado - além de diversificar a produção rural e a renda do agricultor.

De porta em porta

Para servir de modelo demonstrativo, foi escolhida uma área de 0,5 hectare na propriedade do seu Daniel – a fazenda “Morro Adeus, Mamãe”, situada na área rural do município de Apiacás, a 953 quilômetros de Cuiabá, no extremo norte do Mato Grosso. Foram plantadas, na área compreendida pelo modelo demonstrativo mudas de melancia, açaí, coco, laranja, abacaxi, banana, cupuaçu, entre outros produtos.

O sistema escolhido para a implantação foi o de “SAF sucessional produtivo”, ou seja, um sistema agroflorestal que contempla um rodízio de produtos - de modo que a área tenha produção e gere rendimentos durante vários meses do ano. Também foram realizados uma série de procedimentos para preparar a terra e assim otimizar sua produção: aplicação de adubo orgânico e biofertilizante, construção de cercas e abertura de valas, por exemplo.

Como resultado, no primeiro ano de trabalho foram produzidas 6 toneladas de melancia e 1 de abóbora – e nos primeiros três meses já era possível contabilizar resultados. A maior parte desta produção foi vendida para pequenos comércios locais, com seu Daniel batendo de porta em porta nesses mercadinhos. Outra parte foi vendida à Associação Regional dos Apicultores da Amazônia Apiacaense (Arapama) e uma pequena sobra ficou para consumo interno na fazenda do agricultor.

Filha de Seu Daniel, a turismóloga Patricia Sapatini da Silva, 18, acompanhou de perto o processo de implantação do Sistema Agroflorestal na fazenda do pai. “Já tínhamos, em nossa propriedade, um SAF feito apenas com açaí e preparado do modo tradicional. Foi possível, após alguns meses, comparar os resultados e ver como a questão da sustentabilidade, aliada à geração de renda, é útil e ajuda bastante no incremento da produção”, disse.

Educação e sensibilização

Além da implantação do modelo demonstrativo, o projeto do WWF-Brasil também realizou cursos técnicos de SAF, com o objetivo de sensibilizar os moradores da zona rural de Apiacás para a adoção de sistemas agroflorestais em suas fazendas. O curso foi realizado em etapas – ocorridas em agosto e novembro de 2011 e março de 2012 - onde foram discutidos temas como “Homem e Natureza”, “Conceito de SAF”, “Fundamentos, Implantação e Manejo de Sistemas Agroflorestais”.

No total, 20 produtores participaram do curso promovido pelo WWF-Brasil e a empresa Mapsmut. As aulas teóricas e praticas foram realizadas no sitio “Morro Adeus, Mamãe”, de propriedade do seu Daniel. Durante a capacitação, os participantes tiveram contato com as bases teóricas dos SAF’s e, por meio do modelo demonstrativo instalado na fazenda, com a prática da implantação e manutenção de um sistema agroflorestal.

Facilitador do curso em todas as etapas, o engenheiro agrônomo Glaucinei Brissow Realto disse ter observado muitos resultados positivos na capacitação. “Não focamos só no plantio da agrofloresta, mas também em produção e alternativas ecológicas. Então unimos a sustentabilidade com a geração de renda, o que deixou os produtores bem interessados no curso”, explicou. Glaucinei aproveitou também a oportunidade e repassou noções alternativas de manejo da terra, como preparo e uso de compostagem e técnicas de controle de insetos que não utilizassem agrotóxicos ou produtos químicos.

“Vi que os agricultores entenderam o que é agrofloresta e sua importância. Muitos deles puseram em prática, em seus sítios, aquilo que víamos no curso. E eles querem manter este trabalho, dar continuidade e ampliar o alcance desta ideia”, disse o técnico.

Outro profissional envolvido no trabalho, o engenheiro florestal Ayslaner Gallo, também avaliou de forma positiva o curso. “Nossa parceria com o seu Daniel foi muito boa. Em poucos meses de trabalho, em apenas meio hectare, já tivemos colheita, venda e geração de renda. O ano de plantio ainda não terminou, mas os participantes do curso já visualizaram resultados bem sólidos e viram os benefícios que um sistema agroflorestal traz”, disse o especialista.

“Fiquei impressionada com o que vi”

Proprietária do sítio São Cristovão, no assentamento de Igarapé do Bruno, também na área rural de Apiacás, a agricultora Eva Moreira, 46, gostou da capacitação promovida pelo WWF-Brasil. “O treinamento foi ótimo. Aprendi muito e fiquei bastante empolgada. No início do curso plantamos algumas bananeiras que cresceram muito rápido nesses poucos meses. Fiquei impressionada com o que vi”, afirmou.

Eva contou ainda que vários colegas de curso levaram para suas propriedades os fundamentos dos sistemas agroflorestais – e ela própria começou a utilizar adubo orgânico em seu sitio, além de plantar, de novas maneiras, mudas de pequi, jatobá e bananas. “Achei muito interessante lidar, ao mesmo tempo, com a questão da conservação e da produção. As duas idéias não precisam estar separadas e, com certeza, isso vai ajudar todos aqueles que investem na produção rural em Apiacás”, declarou.

O analista de conservação do WWF-Brasil, Samuel Tararan, contou que existe uma grande satisfação em ver os agricultores se dedicando e aplicando os conhecimentos adquiridos ao longo do projeto em suas propriedades. “Isso é reflexo de uma parceria de sucesso. Todos ganham: o agricultor que aumenta a renda familiar através da produção com qualidade; o meio ambiente, com o aumento da biodiversidade no solo e, acima dele, a conservação dos recursos hídricos; além do próprio fortalecimento dos atores envolvidos. O grande desafio é multiplicar essas práticas sustentáveis pela região”, disse o especialista.
Produtores rurais de Apiacás durante uma das etapas do curso de Sistemas Agroflorestais em Apiacás (MT)
Produtores rurais de Apiacás durante uma das etapas do curso de Sistemas Agroflorestais em Apiacás (MT)
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Com a adoção de técnicas específicas, produtores rurais serão capazes de manter a produção e conservar os recursos naturais de suas propriedades
Com a adoção de técnicas específicas, produtores rurais serão capazes de manter a produção e conservar os recursos naturais de suas propriedades
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