O guardião dos pássaros

setembro, 17 2026

Com apoio de projeto do WWF-Brasil, o guia de observação de aves de origem Pataxó Jaílson Santos tem no Parque Nacional do Pau Brasil seu sustento

Por WWF-Brasil

Considerada uma das aves mais bonitas do Brasil, o crejoá (Cotinga maculata), pássaro típico da Mata Atlântica, é uma das espécies mais ameaçadas atualmente. São poucos os sortudos como Jaílson de Souza Santos, 56 anos, fotógrafo e condutor de visitantes no Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro, que já viram o crejoá mais de uma vez. Outra preciosidade, o beija-flor bandeirinha (Discosura longicaudus), cujo ninho já virou até peça de museu por acharem que ele nem existia mais, é o segundo favorito de Jailson, que também é especialista em observação de aves. Foi do bandeirinha que ele fez uma de suas fotos mais lindas, em 2020.

Jaílson tem uma longa relação com o Parque, onde se tornou brigadista há mais de vinte anos. De forma autodidata e intuitiva, passou a fotografar a natureza com uma máquina que ganhou de presente de um amigo. Com um olhar especial para os pássaros, foi convidado a fazer parte do Projeto Harpia, rede de pesquisa sobre águias florestais brasileiras, do qual participa eventualmente nos trabalhos de campo, no monitoramento das aves. 

Com toda essa experiência, se tornar um guia de observação de aves era uma questão de tempo – e de oportunidade, o que aconteceu há dois anos quando o Parques Design, um programa realizado pelo WWF-Brasil com apoio da empresa HP, ofereceu um treinamento aos povos tradicionais e comunidades do entorno de parques nacionais do sul da Bahia para o turismo de base comunitária. Jaílson, claro, foi um deles. “O projeto mudou a minha vida e de todos aqui que passaram pelo curso, porque a gente era pedra bruta, sabia fazer, tinha potencial, mas aí eles vieram e lapidaram essa pedra”, conta. 

“Depois, o WWF-Brasil deu a oportunidade de irmos a São Paulo apresentar o nosso trabalho em um evento. Não tenho palavras para descrever como isso me impactou”, diz Jailson, que esteve no AVISTAR, Encontro Brasileiro de Observação de Aves. Foi quando ele se sentiu meio pássaro ao andar de avião pela primeira vez – e onde teve conexão com outros profissionais e amantes dessa atividade que é tão importante para ele, pessoalmente e profissionalmente. 

Hoje, Jaílson pode ser contratado por turistas para passar o dia todo no Parque, lugar que ele conhece na palma da mão – da flora, que inclui o famoso pau-brasil, à fauna e suas aves exuberantes. Para ele, o curso o colocou em um novo patamar como profissional, não só em relação à observação das aves, mas como um defensor daquele território, que é relativamente novo (o Parque Nacional do Pau Brasil foi criado em 1999).  

Espalhado por quase 20 mil hectares do sul da Bahia, no começo o parque servia mais para a conservação da biodiversidade. A partir de 2020, foi criado um serviço de apoio à visitação e, desde então, a Unidade de Conservação (UC) passou a contar com estacionamento, centro de visitantes e trilhas de diferentes tamanhos e níveis de dificuldade.  

Sob demanda de organizações locais e apoio do WWF-Brasil, naquela mesma época começou a se estruturar o planejamento integrado do uso público em oito UCs do território, iniciativa que deu origem a um roteiro de ecoturismo nas Unidades de Conservação da região que busca promover geração de renda aliada à conservação, sem ameaçar os ecossistemas.  

A parceria entre HP e WWF-Brasil apoia diretamente três Parques Nacionais (do Pau Brasil, Histórico do Monte Pascoal e do Descobrimento), mas indiretamente os benefícios abrangem outras cinco Unidades de Conservação, sendo Reservas Extrativistas, Refúgio de Vida Silvestre e Parque Nacional Marinho, em uma área de 4473 km² ao longo das costas do Cacau, do Descobrimento e das Baleias.

Da roça à floresta

Nascido na cidade de Guaratinga, cidade próxima a Porto Seguro, Jaílson cresceu nas imediações do parque com a família de pequenos agricultores. “Não tive infância, meu brinquedo era uma foice amolada que meu pai me entregava logo cedo para ir para roça”, recorda-se. “O meu pai pegava aquelas cercas de fazenda pra fazer, e a gente ia junto.” Os pais se separaram quando ele era pequeno, e ele chegou a morar com a mãe e o irmão em barraca de lona, em beira de rio, mudando dali para lá conforme a necessidade.

No processo de treinamento, Jaílson se reconheceu como indígena Pataxó, povo que habita aquela região. Ele diz que sempre soube que fazia parte desse povo, mas, criado na roça, se via mais nos hábitos rurais que florestais. Com a vivência dentro do Parque, primeiro como brigadista, depois como fotógrafo e, enfim, como condutor, o reconhecimento de suas origens se tornou mais claro. Hoje, tal como o crejoá e o bandeirinha, Jaílson se sente em casa. E percebe um movimento semelhantes entre os seus parceiros de parque que também fizeram o curso.

“Hoje, nossa atuação está mais diretamente relacionada à conservação porque somos guardiões dessa área, e estamos ajudando a mudar a mentalidade dos demais moradores do entorno que sempre derrubaram árvores”, diz. “A comunidade está entendendo que é preciso plantar, não cortar, que isso garante inclusive a água que a gente bebe no dia a dia.”

Ele conta que nunca gostou de árvore derrubada nem de passarinho em gaiola, mas reconhece que seu nível de consciência sobre restauração e sobre a Mata Atlântica como um todo agora está em outro patamar: com o seu trabalho, sabe que está contribuindo diretamente na conservação do bioma. 

E percebeu, ao longo dos anos, que trabalhar com a conservação da natureza, além de fazer bem para a saúde do planeta e de seus habitantes, é um bálsamo para a saúde mental. “Às vezes a gente tá meio deprimido, desanimado com as coisas da vida, e sai para fazer uma observação de aves e o ânimo muda na hora.” 

Como parte de um grupo maior, guias de outros parques também treinados pelo projeto, ele sabe que é apenas um entre tantos, mas que está colaborando à sua maneira. “Sou como o beija-flor que eu tanto amo fotografar, carrego um pinguinho de água no bico, é a minha contribuição”, finaliza, tendo ao lado a pequena Jaine, de três anos, sua filha mais nova e já aprendiz na observação de aves. É por ela, também, que ele cuida da floresta como se fosse sua casa.

Guiamento de Observação de Aves ocorre em trilhas e mirantes do Parque Nacional do Pau-Brasil
© Thiago Camara / WWF-Brasil
O Parque Nacional do Pau Brasil é uma unidade de conservação federal abundante em história, biodiversidade preservada e paisagens de tirar o fôlego
© Adriano Gambarini / WWF-Brasil
Jaílson recebe turistas e visitantes no Parque Nacional do Pau-Brasil para fazer saídas de Observação de Aves
© Thiago Camara / WWF-Brasil
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