É hora de ações ambiciosas, ampliar investimentos e transformar compromissos em impacto

agosto, 31 2026

Na COP17 da UNCCD, na Mongólia, pastagens, campos e sistemas alimentares ganharam espaço central nas agendas de ação, mas as Partes não conseguiram chegar a um acordo sobre um plano essencial para fortalecer a preparação e a resposta às secas

Por WWF e WWF-Brasil 

Ulaanbaatar, Mongólia (28 de agosto de 2026) - A COP17 da UNCCD trouxe estrutura e investimentos muito necessários para soluções até então negligenciadas para as crises da natureza, do clima e da segurança alimentar. As Partes aprovaram boas decisões para proteger, manejar de forma sustentável e restaurar pastagens e campos antes negligenciados, fortalecer pastores e comunidades locais que historicamente receberam pouco apoio e promover a transição para uma agricultura mais sustentável. Paralelamente, a Presidência da COP17, a cargo da Mongólia, mobilizou a energia de diversos atores para lançar uma iniciativa emblemática para as pastagens, com US$ 1,2 bilhão em investimentos nesses ecossistemas e soluções. 

No entanto, nem todas as ações consideradas importantes pelo WWF foram concretizadas. Apesar dos esforços da Presidência e de muitos países dispostos a avançar, os negociadores não conseguiram chegar a um protocolo ou marco histórico para ampliar a preparação e a resiliência diante das secas. Em vez disso, as Partes decidiram continuar as negociações na COP18, em 2028, depois de já terem adiado uma decisão na COP16, em 2024. A falta de ambição dos países se choca com a realidade de maior intensidade e frequência dos eventos climáticos extremos, em um contexto de Super El Niño e, portanto, de aceleração dos processos de desertificação em várias regiões do mundo, inclusive no Brasil. 

Sobre os resultados gerais da COP17, Joao Campari, Líder Global de Alimentação e Agricultura do WWF, afirmou: 

“O tema da COP17 foi ‘restaurar a terra, restaurar a esperança’. Embora os países e as pessoas que enfrentam os impactos cada vez mais graves das secas tenham ficado prejudicados, a elevação das pastagens, dos campos e da agricultura positiva para a natureza ao centro da agenda criou uma nova esperança para bilhões de pessoas. De fato, as negociações formais são apenas uma parte da equação em uma COP – todos podem encontrar esperança no impulso gerado em torno de todas as questões prioritárias pelas ações de coalizões de atores determinados. No entanto, apenas esperança não protegerá a natureza, limitará as mudanças climáticas nem colocará comida na mesa. A COP17 lançou bases sólidas, mas agora o foco precisa mudar para a implementação no território e para o apoio às comunidades locais, a fim de gerar benefícios duradouros para todos.” 

Sobre as secas, Christine Colvin, Líder Global de Políticas de Água Doce do WWF, disse:

“É profundamente decepcionante que a ambição em relação às secas tenha se perdido. Não foi alcançado um resultado significativo, e não temos uma base mais sólida a partir da qual construir ações. Mas, pelo menos, as conversas fundamentais que acontecem fora das salas de negociação continuaram a avançar. Embora não substituam um protocolo ou marco, o empenho demonstrado por muitos governos, organizações da sociedade civil e instituições financeiras permitirá que a implementação avance. As Partes não entregaram o acordo que esperávamos, mas, com muitos países ao redor do mundo enfrentando desastres relacionados à seca, atores nacionais e regionais seguirão trabalhando para cumprir a tarefa que têm pela frente – fortalecer a preparação e a resiliência diante das secas para proteger as pessoas e a natureza.” 

Sobre pastagens, campos e savanas, Leonie Meier, Líder Global de Campos e Savanas do WWF, afirmou: 

“Campos, savanas e pastagens cobrem mais da metade de nossas terras e são a fonte da maior parte dos alimentos do mundo. Sistemas alimentares e agrícolas positivos para a natureza são essenciais para manter esses ecossistemas críticos. Portanto, precisamos mudar a forma como eles são manejados, governados e financiados. Da Presidência às Partes, passando pelos pastores e todos os demais atores envolvidos, a COP17 trouxe resultados para essas paisagens que durante muito tempo foram negligenciadas.” 

Sobre as sinergias entre terra, natureza e clima, Martina Fleckenstein, Líder Global de Políticas de Alimentação e Agricultura do WWF, afirmou:

“As pessoas não vivenciam a degradação da terra, a perda da natureza ou as mudanças climáticas como questões independentes. É necessária uma resposta coordenada e integrada para enfrentar impactos que também estão conectados. Foi decepcionante que as negociações formais para promover a integração entre as Convenções do Rio tenham sido bloqueadas, mas, ainda assim, sinergias estão sendo criadas. As Presidências das três COPs estão avançando nesse trabalho, e a alimentação e a agricultura surgiram como uma oportunidade fundamental.”

Anita Diederichsen, Líder Global de Restauração de Florestas e Paisagens do WWF e presidente da Parceria Global para a Restauração de Florestas e Paisagens, afirmou: 

“A COP17 demonstrou claramente que a restauração de terras é um mecanismo fundamental para a implementação das três Convenções do Rio. Essa mensagem precisa ser levada adiante para acelerar a implementação e ampliar o impacto da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas — para as terras, a água, a biodiversidade, o clima e as pessoas.”

DA AGENDA GLOBAL À REALIDADE BRASILEIRA

Os resultados da COP17 também lançam luz sobre os desafios e as oportunidades para países como o Brasil, onde a conservação da natureza, a produção de alimentos, a adaptação às mudanças climáticas e o desenvolvimento rural estão profundamente conectados. À medida que o processo internacional avança para as próximas COPs de biodiversidade e clima, será fundamental transformar os compromissos assumidos em recursos e ações concretas nos territórios. 

Para Tatiana Oliveira, Líder da Estratégia Internacional do WWF-Brasil, as três agendas precisam avançar de forma articulada, especialmente no que diz respeito ao financiamento e à implementação: 

“A COP da Desertificação, a COP da Biodiversidade e a COP do Clima não podem ser vistas como agendas separadas. Elas tratam de diferentes dimensões de uma mesma realidade e precisam convergir em soluções e, principalmente, em financiamento. No Brasil, temos uma enorme oportunidade de transformar essa convergência em ação concreta. O que precisamos agora é garantir que os compromissos internacionais se traduzam em recursos, políticas públicas e investimentos capazes de apoiar quem está no território e acelerar uma transição para sistemas produtivos mais resilientes e positivos para a natureza.”

O WWF conclama agora todos os atores a demonstrarem ambição e urgência na implementação de soluções e a aproveitarem o impulso gerado na Mongólia nas próximas COPs da CBD e da UNFCCC, que serão realizadas, respectivamente, na Armênia e na Turquia nos próximos meses.

Paisagem pantaneira com gado e pastagem nativa
© Embrapa Pantanal / Raquel Brunelli
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