COP15 destaca corredores ecológicos para salvar espécies migratórias

março, 27 2026

Realizada em Campo Grande (MS), conferência da ONU debate conexão entre habitats para garantir o deslocamento da fauna – como onças, baleias e botos

Por Fábio de Castro e Solange Azevedo, de Campo Grande (MS)

As espécies migratórias – sejam elas aves, peixes ou mamíferos – desempenham um papel vital na manutenção dos ecossistemas. Para sobreviver, esses animais dependem de ambientes conectados que permitam seus deslocamentos por vastas áreas. Essa conexão, no entanto, está sob intensa ameaça. A perda, degradação e fragmentação de habitats já afetam 75% dessas espécies, de acordo com relatório recente da ONU. Diante desse cenário, a conectividade ecológica se tornou o eixo central da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias (CMS), a COP15.

Com o lema “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”, o encontro ocorre pela primeira vez no Brasil, entre os dias 23 e 29 de março, em Campo Grande (MS), no coração do Pantanal. A conferência reúne governos, cientistas, ambientalistas, povos indígenas e organizações da sociedade civil para discutir soluções capazes de manter – e restaurar – a conexão entre ecossistemas.

Para especialistas, o problema é urgente, embora muitas vezes invisível. O analista de Conservação e ponto focal para biodiversidade terrestre do WWF-Brasil, Felipe Feliciani, alerta que o colapso da conectividade ecológica está entre as ameaças mais silenciosas e perigosas à biodiversidade global. Segundo ele, “sem corredores funcionais, isolamos populações inteiras e comprometemos processos ecológicos essenciais à vida no planeta”.

A conectividade ecológica permite que os animais se desloquem entre habitats, mesmo em paisagens fragmentadas – um movimento essencial para migração, alimentação e troca genética. Além de garantir a sobrevivência das espécies, esse fluxo sustenta serviços ecossistêmicos fundamentais, como polinização, controle de pragas, circulação de nutrientes e até o enfrentamento das mudanças climáticas.

A onça-pintada (Panthera onca) ilustra bem esse desafio. Presente no Brasil em biomas como o Pantanal, a Amazônia e a Mata Atlântica, depende de grandes áreas contínuas para sobreviver – e foi incluída na CMS no contexto de espécies transfronteiriças da América do Sul. Embora cerca de 45% de sua população esteja em áreas protegidas, isso não é suficiente. A expansão da agricultura e da pecuária fragmenta seu habitat, reduz a diversidade genética e elimina rotas de dispersão.

Esse processo também intensifica conflitos com humanos, já que a perda de habitat amplia o acesso a áreas antes isoladas. “É preciso garantir que essas áreas estejam conectadas por corredores ecológicos que permitam o fluxo da vida. Essa é uma agenda estratégica não apenas para a conservação, mas também para a segurança ambiental e econômica”, afirma Feliciani.

Corredores que conectam biomas e países

Na COP15, uma das principais estratégias em debate é justamente a criação de corredores ecológicos – tanto em terra quanto na água. A proposta inclui conectar áreas protegidas para integrar paisagens fragmentadas, com iniciativas que vão desde corredores para onças-pintadas até rotas marinhas para

baleias e tartarugas, além da recuperação da conectividade de rios essenciais para peixes migratórios e botos.

Como destaca o diretor técnico de Biodiversidade do WWF-Brasil, Marcelo Oliveira, o desafio exige uma visão integrada. “A conectividade precisa ligar florestas, rios e oceanos. Só assim conseguiremos responder à escala dos desafios enfrentados pelas espécies migratórias e pelos sistemas naturais”, explica.

Esse esforço também passa pela cooperação internacional. Espécies migratórias atravessam fronteiras políticas – o que torna indispensável a articulação entre países. Em um dos painéis, especialistas discutiram justamente como construir essa conectividade em toda a América do Sul, especialmente para a conservação da onça-pintada em escala continental.

Da teoria à prática: alianças e iniciativas

A COP15 tem sido palco para o lançamento e o fortalecimento de iniciativas concretas. Entre elas está a Rede Pantaneira pela Coexistência Humano-Onça, que reúne instituições com atuação no bioma.

Segundo Cynthia Santos, analista de Conservação e facilitadora da estratégia para o Pantanal do WWF-Brasil, a rede nasce de um processo que começou com experiências anteriores e ganhou escala regional. “O projeto Onças do Iguaçu serviu como referência. Em 2022, estruturamos um plano de coexistência entre humanos e onças e, a partir daí, ampliamos as ações com o projeto PACHA, envolvendo Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Esse caminho permitiu consolidar estratégias no território e culminou na criação da Rede Pantaneira”, explica.

Hoje, a iniciativa reúne diferentes organizações com atuação complementar. Alexandre Enout, do Polo Socioambiental Sesc Pantanal, ressalta que a diversidade é justamente a força da rede. “Somos 11 instituições com diferentes áreas de atuação, mas convergentes em nossos objetivos. Atuamos em uma região complexa, com terras indígenas, grandes fazendas e comunidades locais. Nosso papel é integrar esses interesses e investir em educação ambiental para reduzir conflitos entre humanos e onças”, afirma.

Outro avanço anunciado durante a conferência foi a parceria entre WWF-Brasil e Panthera Brasil, voltada à conservação do maior felino das Américas e dos habitats onde vive. A diretora do Programa Onça-Pintada da Panthera, Allison Devlin, frisou que a iniciativa busca ampliar o impacto das ações em curso. “Estamos unindo recursos e expertise para intensificar a proteção da onça-pintada, um símbolo do Brasil”, diz.

Marcelo Oliveira acrescenta que a colaboração já se traduz em projetos concretos. “Temos iniciativas no Pantanal, incluindo turismo associado à observação de onças, e na Amazônia, com foco na redução de impactos sobre a espécie. Após a COP15, faremos uma visita de campo com autoridades para dar concretude a essa agenda”, relata.

Um desafio global

Apesar dos avanços, especialistas reconhecem que ainda há um longo caminho entre compromissos e implementação. Mariano Castro Jiménez, especialista associado à Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), chama a atenção para essa lacuna ao questionar se a conectividade está, de fato, sendo aplicada em escala global. Segundo ele, embora existam mecanismos de monitoramento, ainda há limitações importantes, especialmente fora dos ecossistemas terrestres.

A necessidade de ação concreta também foi destacada por representantes governamentais. Para Frida Cecilia Rodríguez Pacheco, da Diretoria-Geral de Diversidade Biológica do Peru, a conectividade precisa sair

do discurso e ir para a prática. “É fundamental ter vontade política para implementar ações e garantir a participação das comunidades como parceiras estratégicas”, afirma.

Já Alejandro Araújo, diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas da Bolívia, ressalta que modelos de uso sustentável da floresta podem favorecer a conectividade, embora o país também enfrente pressões de atividades como agricultura, pecuária e mineração.

Do ponto de vista marinho, María Fernanda Vila, diplomata do Chile, reforça que a conservação de espécies como baleias exige uma abordagem ainda mais ampla. De acordo com ela, esses animais dependem de redes ecológicas que atravessam oceanos inteiros, o que demanda integração entre ciência, políticas públicas e governança internacional.

Nesse contexto, ganha força a proposta de incorporar a conectividade como um novo pilar das políticas globais de conservação. Para Bráulio Souza Dias, diretor de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), isso ajudaria a integrar esforços entre diferentes convenções internacionais e fortalecer a implementação das metas já existentes.

“Há cerca de 20 anos, aprovamos o Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), que tem quatro pilares principais: governança, participação, monitoramento e capacitação. Minha proposta é acrescentar um pilar adicional nesse programa, especificamente voltado para a conectividade. Esse programa poderia ser coordenado em conjunto entre a CMS e a CDB, como uma forma de integrar as duas convenções”, declarou Dias.

Ao colocar a conectividade ecológica no centro da agenda global, a COP15 reforça uma mensagem clara: proteger áreas isoladas já não é suficiente. O desafio agora é reconectar paisagens, restaurar fluxos naturais e transformar compromissos em resultados concretos.

Nesse cenário, o Brasil – e biomas estratégicos como o Pantanal – assumem um papel decisivo na construção de soluções que conciliem conservação da biodiversidade, desenvolvimento sustentável e bem-estar humano.

 

COMO O WWF-BRASIL ATUA

O WWF-Brasil tem o compromisso de contribuir para a construção de um futuro sustentável, em que o país avance rumo à neutralidade de emissões, com sua biodiversidade conservada e impulsionado por um modelo de desenvolvimento justo, inclusivo e responsável. Nossa estratégia está estruturada em quatro pilares:

• Zerar o desmatamento e fomentar Soluções Baseadas na Natureza.

• Fortalecer a conservação da biodiversidade promovendo a conectividade.

• Proteger direitos e promover o bem-estar de povos e comunidades tradicionais.

• Promover um desenvolvimento de baixo impacto.

A conectividade ecológica permite que os animais se desloquem entre habitats, mesmo em paisagens fragmentadas
© Valeria Boron / WWF- UK
Jaguar Parade - que tem apoio do WWF-Brasil - na Blue Zone da COP15 da CMS, espaço oficial para as delegações internacionais e negociações da ONU, instalada no centro de eventos do Shopping Bosque dos Ipês, em Campo Grande, MS
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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