ONU: Migrações vitais de peixes de água doce estão entrando em colapso

março, 25 2026

Estudo lançado na COP15 da CMS evidencia que centenas de espécies precisam de colaboração urgente e transfronteiriça coordenada

Por CMS e Solange Azevedo, do WWF-Brasil

Algumas das migrações mais extensas e importantes de espécies da Terra estão ocorrendo sob a superfície dos rios do mundo e muitas estão rapidamente colapsando, de acordo com uma nova e importante avaliação da Convenção para a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (CMS), um tratado ambiental das Nações Unidas.

A Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce, lançada nesta terça-feira, 24 de março, na 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15) da CMS no Brasil, revela que peixes migratórios de água doce — um grupo de espécies que mantêm a saúde dos rios, sustentam algumas das maiores pescas continentais do mundo e alimentam centenas de milhões de pessoas — estão entre os animais silvestres mais ameaçados do planeta.

Destaca ainda que centenas de peixes migratórios precisam de ação transfronteiriça, apresentando evidências conclusivas de que espécies cujos ciclos de vida dependem de rios conectados ao longo das fronteiras nacionais enfrentam declínios acelerados impulsionados pela construção de barragens, fragmentação de habitats, poluição, pesca excessiva e mudanças climáticas nos ecossistemas.

O estudo identifica 325 espécies migratórias de peixes de água doce como candidatas a esforços internacionais coordenados de conservação, chamando a atenção para uma crise de biodiversidade amplamente negligenciada que se desenrola nas bacias hidrográficas compartilhadas do planeta.

“Analisamos mais de 15 mil espécies de água doce em todo o mundo, peixes que estão em declínio e precisam de ajuda e peixes que cruzam fronteiras internacionais. Os resultados mostram 325 espécies que potencialmente atendem aos critérios para inclusão na CMS. No entanto, agora temos apenas três espécies de peixes de água doce listadas”, frisou o cientista Zeb Hogan, conselheiro para Peixes de Água Doce da COP e principal autor do estudo, durante o evento de lançamento.

“A região que se destaca pela necessidade de ação imediata, pela capacidade de agir e liderar imediatamente, como já vimos aqui nesta conferência, é a América do Sul. A América do Sul possui dezenas de espécies de peixes migratórios de grande importância comercial que precisam de cooperação internacional para sua gestão. Portanto, há uma oportunidade real para os países da América do Sul assumirem a liderança”, acrescentou.

A distribuição regional das 325 espécies migratórias de peixes de água doce consideradas candidatas à proteção internacional nos termos dos Apêndices I – que enumeram as espécies que requerem proteção rigorosa – e II – que enumeram as espécies que necessitam de cooperação internacional – da Convenção (para além das 24 já enumeradas) é a seguinte:

  • Ásia: 205
  • América do Sul: 55
  • África: 42
  • Europa: 50
  • América do Norte: 32

O total ultrapassa 325 porque algumas espécies ocorrem em vários continentes.


As bacias fluviais prioritárias incluem a Amazônica e a Bacia Platina (Paraná, Paraguai e Uruguai), na América do Sul; o Danúbio, na Europa; o Mekong, na Ásia; o Nilo, na África; e o Ganges–Brahmaputra, do subcontinente indiano.

“Ao contrário dos animais terrestres e marinhos, que têm muitas opções diferentes de como se deslocar pelas paisagens, as espécies de água doce migratórias têm praticamente apenas uma opção: a rede fluvial. Portanto, quando essa rede é bloqueada ou fragmentada, impede-se que essas espécies cheguem aos seus locais de desova e migração. Isso quer dizer que manter esses rios e planícies aluviais conectados é crucial, se quisermos um futuro em que essas espécies possam sobreviver”, afirmou Michele Thieme, vice-presidente e diretora adjunta para água doce no WWF-Estados Unidos. “Acredito que temos aqui uma grande oportunidade de obter compromissos da Convenção da Biodiversidade e da CMS em relação à conectividade ecológica e, também, para destacar a importância dos rios na manutenção e na criação de conectividade entre áreas protegidas já existentes e da criação de novas áreas protegidas”.

Preparado por especialistas científicos da CMS utilizando extensos conjuntos de dados globais e avaliações da IUCN de quase 15 mil espécies de peixes de água doce, o relatório oferece a visão mais abrangente e atualizada sobre as necessidades de conservação de peixes migratórios de água doce. Também descreve ferramentas práticas que os governos podem implantar de imediato, incluindo:

  • proteção dos corredores migratórios e dos fluxos ambientais;
  • planos de ação em escala de bacia e monitoramento transfronteiriço;
  • e pescas sazonais coordenadas.

Uma crise global escondida sob a linha d'água

As populações de animais que habitam ecossistemas de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que as populações de animais terrestres e marinhos, mas o colapso das populações de peixes migratórios de água doce recebeu pouca atenção internacional.

Muitos peixes migratórios dependem de longos corredores fluviais ininterruptos que conectam áreas de desova, áreas de alimentação e viveiros de planícies de inundação, frequentemente em vários países. Quando barragens, fluxos alterados ou degradação do habitat interrompem esses caminhos, as populações podem diminuir rapidamente.

De acordo com o relatório, as populações de peixes migratórios de água doce no mundo diminuíram cerca de 81% desde 1970 e quase todas (97%) das 58 espécies de peixes migratórios listadas na CMS (incluindo espécies de água doce e salgada) estão ameaçadas de extinção.

A nova avaliação aprofunda esse quadro, identificando centenas de peixes migratórios de água doce com status de conservação desfavorável e ressalta que proteger os peixes migratórios exige o manejo dos rios como sistemas conectados, e não como vias navegáveis nacionais isoladas.

Destaque nos grandes rios da América do Sul

Anfitrião da COP15, o Brasil está propondo várias medidas de conservação relacionadas aos dois maiores sistemas fluviais da América do Sul, as bacias Amazônica e Platina.

A Bacia Amazônica continua sendo um dos últimos grandes redutos para peixes migratórios de água doce, mas as pressões crescentes do desenvolvimento ameaçam esse status.

O pescador Nilson Monteiro do Nascimento, que faz parte do Conselho Nacional Populações Extrativistas e atua há mais de 40 anos na região de Curuçá, no nordeste do Pará, descreveu a preocupação das comunidades extrativistas com a redução da população de peixes durante o evento. “Acompanhamos de perto o quanto os cardumes vêm diminuindo no nosso litoral, que faz parte do berçário de peixes. Há uma grande preocupação, porque só temos a visita dos cardumes de piramutaba em um período de dois meses por ano. Mas os pescadores - tanto da indústria como da pesca artesanal - fazem a captura dessa espécie todos os anos e não temos o controle de quantas toneladas estão saindo do Pará. Em 41 anos como pescador, já vi muita fartura dessa espécie. Agora, o pescador está tendo dificuldade para garantir o sustento da sua família. Precisamos cuidar da área de berçários e da área estuarina”, alertou.

Um estudo de caso divulgado junto com a nova avaliação global identifica 20 espécies de peixes migratórios na Amazônia que atendem aos critérios para possível inclusão no Apêndice II do CMS. Esses grandes migrantes de longa distância são referência dos peixes migratórios do rio, que representam cerca de 93% dos desembarques pesqueiros, sustentando pescas regionais avaliadas em cerca de US$ 436 milhões anualmente.

Eles também são famosos por realizar algumas das migrações de água doce mais longas já registradas. Entre eles está a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), um peixe que vive no fundo do rio, conhecido por sua pele metálica dourada/prateada e tamanho impressionante (até 2 metros / 6,5 pés), altamente valorizado na pesca comercial.

Reconhecido pela migração de água doce de maior ciclo de vida de qualquer peixe, sua jornada abrange 11 mil quilômetros, desde as nascentes andinas até viveiros costeiros.

Para fortalecer a conservação, o Brasil e outros governos estão propondo um Plano de Ação Multiespécies para o Bagre Migratório Amazônico (2026–2036), desenvolvido por meio da cooperação regional envolvendo múltiplos países.

“Trabalhando juntos, governos e sociedade civil podem assegurar o futuro dessas extraordinárias espécies de espécies migratórias de água doce continuem a prosperar em nossos rios por todo o mundo pelas futuras gerações”, destacou Amy Fraenkel, secretária executiva da CMS, durante o evento.

O Brasil também propôs a inclusão do Pintado (Pseudoplatystoma corruscans) no Anexo II da CMS, destacando a necessidade de ação coordenada na Bacia da Prata, onde eles são ameaçados por barragens, fluxos alterados e pressões de pesca.

“Precisamos trabalhar juntos para desenhar políticas públicas que de fato assegurem que possamos fazer a extração, o manejo das espécies de peixes. O Brasil é um campeão na diversidade de peixes e temos todas as razões do mundo para estarmos preocupados com o estado de conservação que estamos observando”, declarou Rita Mesquita, secretária Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos dos Animais, Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA), na abertura do evento.

“O Brasil tem feito enormes esforços no sentido de ampliar a base de proteção dos animais aquáticos. Isso envolve as bacias e grandes rios que temos no país e temos procurado ampliar a quantidade de áreas protegidas, com especial atenção aos berçários das espécies que mais são utilizadas como recurso econômico no nosso país e também nas outras nações”, acrescentou Rita.

Também presente no evento, João Paulo Capobianco, presidente da COP15 e secretário executivo do MMA, declarou que “a Convenção das Espécies Migratórias oferece ao Brasil uma importante plataforma para avançar e integrar a agenda dos peixes migratórios e adotar uma proteção adequada dos habitats, dos ecossistemas saudáveis e da conservação da biodiversidade como um todo”. De acordo com ele, as contribuições feitas na COP15 evidenciam que a tomada de decisão efetiva depende não apenas de dados, mas da sabedoria e a experiência viva das comunidades locais. “O intercâmbio entre as evidências científicas e o saber local é essencial para formular políticas públicas que sejam ao mesmo tempo fundamentadas e impactantes”, afirmou.

Mariana Napolitano, diretora de Conservação do WWF-Brasil, que moderou a mesa de lançamento do estudo, também destacou a forte conexão entre a proteção de espécies migratórias e os aspectos socioculturais envolvidos nesse processo. “Esse é exatamente o tipo de ação que nós, do WWF-Brasil, desenvolvemos em parceria com comunidades tradicionais para apoiar a conservação e a restauração dos ecossistemas mais vulneráveis do país – como a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e a Mata Atlântica”, afirmou.

Juntas, as iniciativas estão entre os esforços internacionais mais ambiciosos já realizados para proteger espécies migratórias de peixes de água doce e reforçar o propósito central da CMS: soluções de conservação para espécies migratórias devem operar em toda a gama de espécies e exigir cooperação internacional para ter sucesso.

Peixes migratórios de água doce estão entre os animais silvestres mais ameaçados do planeta
© Zeb Hogan
Uma celebração dos peixes migratórios de água doce na COP15 da CMS no Bioparque do Pantanal, Campo Grande
© Silas Ismael / WWF-Brasil
Michele Thieme, vice-presidente e vice-líder da área de água doce do WWF-US
© Silas Ismael / WWF-Brasil
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