março, 18 2026
Por Fábio de Castro e Solange Azevedo, do WWF-Brasil
Depois de sediar a COP30 do Clima na Amazônia, em novembro de 2025, o Brasil se prepara para mais um evento internacional das Nações Unidas – desta vez no Pantanal. A 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS) será realizada entre 23 e 29 de março em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul.
Embora não tenha a mesma visibilidade da COP do Clima, a COP15 é estratégica para o futuro do planeta. Durante a conferência, membros de governos de 133 partes signatárias da CMS – um tratado internacional juridicamente vinculativo da ONU – tomarão decisões cruciais para assegurar a sobrevivência a longo prazo das espécies migratórias.
“A COP15 é uma oportunidade para transformar decisões internacionais em ações concretas de proteção às espécies migratórias e aos ecossistemas críticos”, destaca Marcelo Oliveira, diretor técnico de Biodiversidade do WWF-Brasil. “Assegurar a conectividade ecológica é, nesse contexto, essencial para manter os serviços que sustentam a vida humana e natural em escala global.”
Espécies migratórias: sentinelas do planeta
As espécies migratórias são animais selvagens que precisam viajar regularmente como parte de seus ciclos de vida. Em percursos que muitas vezes somam milhares de quilômetros, elas desempenham papéis fundamentais para os ecossistemas e para o bem-estar humano, como polinização, dispersão de sementes, controle de pragas e doenças, circulação de nutrientes e armazenamento de carbono.
Funcionam ainda como “sentinelas” do planeta: ao cruzar continentes, atuam como sensores naturais capazes de refletir alterações na circulação de patógenos e mudanças ambientais, muitas vezes antes que elas afetem populações humanas ou animais de criação. Uma ave, uma baleia ou uma tartaruga, por exemplo, depende de ambientes conectados para completar suas longas viagens. Qualquer ameaça que interrompa essa conexão coloca em risco a conservação dessas espécies.
O relatório mais recente da ONU sobre o tema mostra que espécies migratórias enfrentam declínios globais devido à perda de habitat, sobre-exploração, poluição, alterações climáticas e espécies invasoras. Uma em cada quatro das 1.200 espécies listadas pela CMS está ameaçada de extinção, e 49% apresentam declínio populacional, reduzindo sua capacidade de monitorar precocemente riscos sanitários e ecológicos. Das mais de 160 espécies migratórias que dependem do território brasileiro, ao menos 97 estão ameaçadas ou em declínio.
Conectividade ecológica como eixo central
Com a participação de governos, cientistas, ambientalistas, povos indígenas e comunidades locais, a COP15 terá como tema central “Conectando a Natureza para Sustentar a Vida”. Entre os mais de 100 itens da agenda, a conectividade ecológica se destaca por sua relevância estratégica. Ela permite que os animais se movam entre diferentes habitats, mesmo em paisagens fragmentadas, garantindo migração, alimentação e trocas genéticas essenciais à sobrevivência.
Ao integrar ecossistemas terrestres, marinhos e de água doce, as ações de conectividade ligam a conservação das espécies migratórias às agendas de biodiversidade, áreas protegidas e restauração de paisagens, fortalecendo a resiliência dos ecossistemas. Corredores ecológicos terrestres, aquáticos, costeiros e marinhos funcionam como ferramentas estratégicas, permitindo a movimentação dos animais – e a criação de áreas protegidas que conectem paisagens fragmentadas é fundamental. Dessa forma, espécies essenciais podem completar seus ciclos de vida e manter funções ecológicas vitais.
O Pantanal, maior planície inundável do mundo, é estratégico e simbólico: abriga mais de 550 espécies de aves e diversas espécies de peixes que dependem de corredores funcionais para sobreviver. Entre as espécies migratórias em evidência na COP15 estarão onças-pintadas, baleias, peixes amazônicos e botos, símbolos da integração entre os biomas brasileiros. Durante a conferência, serão debatidas ações como corredores de onças-pintadas no Pantanal, na Amazônia e na Mata Atlântica, corredores azuis para baleias e tartarugas, e conectividade fluvial para peixes e botos.
A liderança brasileira e a atuação do WWF-Brasil
Os oceanos terão destaque na CMS. O Brasil já se consolidou como liderança no tema, especialmente após a COP30, e haverá movimentação para criação de corredores azuis para baleias, tubarões, tartarugas e outras espécies. Um corredor azul que conecte a região de Abrolhos, por exemplo, que é riquíssima em biodiversidade marinha, é estratégico.
Tendo a conectividade como eixo estruturador, o WWF-Brasil buscará promover a integração de iniciativas de conservação transnacionais e multibiomas, incluindo a criação de áreas protegidas tanto em paisagens terrestres quanto em áreas costeiras e marinhas – ações que dialogam diretamente com a “Década da Restauração” e a “Década do Oceano” das Nações Unidas. Entre as espécies migratórias, onças-pintadas, baleias e peixes amazônicos serão colocados em evidência como símbolos da conexão entre os biomas do país.
“O WWF-Brasil atua para garantir que ciência, políticas públicas e ações de conservação caminhem juntas. Nosso objetivo é transformar compromissos internacionais em resultados concretos, protegendo espécies migratórias, conectando ecossistemas e fortalecendo a resiliência dos biomas terrestres, costeiros e marinhos”, conclui Marcelo Oliveira.
Veja abaixo algumas iniciativas e eventos em que o WWF-Brasil está envolvido:
BIOPARQUE PANTANAL
- Lançamento do estudo Avaliação Global de Peixes Migratórios e do Plano de Ação Multiespécies para Bagres Migratórios Amazônicos.
ZONA AZUL - VENUE
- Painel Avanços na implementação da abordagem Uma Só Saúde na CMS: conectividade e espécies sentinela como ferramentas para a conservação integrada.
- Painel Conectividade ecológica e cooperação Sul–Sul para espécies migratórias.
- Painel Um continente, uma onça-pintada: construindo conectividade transfronteiriça em toda a América do Sul.
- Painel Da ação local ao impacto regional: estratégias para implementar um plano de conservação da paisagem da onça-pintada em toda a sua área de distribuição.
- Painel Corredores Azuis do Hemisfério Sul: colaboração global e oportunidades regionais para a conservação de baleias.
ESPAÇO BRASIL
- Painel Conectividade em ação: da integração de políticas à implementação territorial para espécies migratórias.
- Painel Dos compromissos à conectividade: avançando na implementação do plano de ação para as baleias do Atlântico Sul.
- Painel Um organismo – Uma Saúde: integrando a saúde de rios, florestas e oceanos para espécies migratórias.
- Painel Zonas Úmidas e Aves Migratórias: Estado de Conservação e Importância Estratégica.
- Painel Parcerias institucionais para o fortalecimento das ações de conservação de onças-pintadas no Brasil – Celebração da parceria entre WWF-Brasil e Panthera-Brasil.
- Painel Lançamento da Rede Pantaneira pela Coexistência Humano-Onça.
- Exposição de esculturas de onças-pintadas no Espaço Brasil: Jaguar Parade.