Expedição científica mapeia recifes nos Montes Oceânicos de Fernando de Noronha

dezembro, 03 2025

O estudo sobre a importância da biodiversidade marinha para a região Nordeste do Brasil também faz um alerta sobre a necessidade urgente da proteção legal para conservação

Por WWF-Brasil

Rumo ao Oceano Atlântico, a IX Expedição Recifes Montes Oceânicos iniciou sua jornada no dia 21 de novembro em direção aos montes submarinos Leste e Sueste de Fernando de Noronha, chegando até o Atol das Rocas (267km da costa brasileira), e regressando no dia 28 de novembro, após navegar 476 milhas náuticas (883km). Mar adentro seguiram nove pesquisadores e cinco tripulantes. O objetivo da expedição científica foi mapear os recifes de corais desses montes e sua biodiversidade. A viagem de pesquisa submarina faz parte de um projeto executado pelo Instituto Recifes Costeiros, coordenado pelo Departamento de Oceanografia da UFPE e Cepene-ICMBio, e conta com a parceria do INCT Amazônia Azul, WWF-Brasil e apoio Blue Nature Alliance. 

“A expedição científica tem como objetivo promover o desenvolvimento de projetos de pesquisa e o monitoramento da geobiodiversidade, ampliando nosso conhecimento sobre os ecossistemas marinhos e costeiros. Essa iniciativa é fruto da colaboração entre diversos parceiros e instituições executoras, que somam esforços para gerar dados essenciais à conservação. O WWF apoia essa ação oferecendo suporte técnico, articulando parcerias e garantindo que os resultados contribuam para políticas públicas, proteção da biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais”, diz Danieli Nobre, Analista Sênior de Conservação do WWF-Brasil.

O departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene-ICMBio) vêm desenvolvendo desde 2012 um sistema de captação de vídeo remoto ao vivo - chamado de Sassanga. O nome é uma homenagem a um apetrecho utilizado por pescadores para identificar a profundidade e a composição do fundo do mar, que é lançado para “sassangar”. O uso dessa tecnologia contribui para o levantamento da paisagem submarina por meio de imagens em alta resolução, com até quatro câmeras, e com baixo custo operacional. Com ajuda da Sassanga, foram filmados 42 pontos subaquáticos, chegando à profundidade máxima de 112 metros de captação de imagens, contabilizando um mapeamento de 44.8km de navegação do equipamento com duas câmeras. Já a profundidade máxima atingida pela embarcação, um catamarã de 60 pés, foi de 4500 metros.

“Essa região é um hotspot de biodiversidade, abriga rotas migratórias de grandes peixes, tartarugas e mamíferos marinhos, além de estoques pesqueiros essenciais para comunidades costeiras e para a segurança alimentar. Também desempenha papel vital como berçário natural e na prestação de serviços ecossistêmicos globais, como sequestro de carbono e equilíbrio climático”, conta Danieli.

Além do mapeamento da região, a expedição também reforça a importância da proteção legal das áreas marinhas, especialmente, por conta das mudanças climáticas e das atividades humanas predatórias. Atualmente, Fernando de Noronha e Atol das Rocas são os únicos montes oceânicos protegidos legalmente. As demais 14 formações geológicas submarinas da região, originadas, na sua maioria, por atividades vulcânicas no fundo do oceano, também apresentam alta biodiversidade, representando um oásis para a vida marinha, mas sem proteção legal federal.

“Em 2023, o Cepene e a UFPE elaboraram uma proposta de criação de uma unidade de conservação nessa área para a conservação da biodiversidade associada aos ecossistemas do fundo do mar e para ordenamento e sustentabilidade da pesca”, conta Leonardo Tortoriello Messias, oceanógrafo integrante da expedição, analista ambiental do ICMBio e coordenador do Cepene.

Mauro Maida, coordenador do projeto e da expedição, e professor de oceanografia da UFPE, reforça que ‘’áreas marinhas protegidas são reconhecidamente importantes ferramentas para conservação marinha, principalmente em situações de mudança climática. Essas áreas são importantes para a manutenção da biodiversidade dos estoques pesqueiros e das populações costeiras, que dependem dos recursos dessas unidades de conservação’’.

Para Mauro, esse estudo torna público um ecossistema que antes era conhecido apenas pelos pescadores, pelo conhecimento tradicional. “Essas estruturas do ecossistema, as paisagens submarinas eram completamente desconhecidas. A sociedade brasileira agora vai saber por meio dessas imagens e com a divulgação desse trabalho que o Brasil tem um megaecossistema submarino”, diz ele.

Em relação à fauna, afirma Mauro, o padrão continua o mesmo. “Temos poucas variedades de peixes grandes. O que constatamos é uma diferença muito grande entre os montes submarinos abertos à pesca em comparação com o Atol das Rocas, uma reserva biológica com uma diversidade e abundância de peixes. Além disso, buscamos esse ano fechar as lacunas das áreas que não conseguiram ser mapeadas na sétima expedição do projeto (2021). Fora isso, reconhecemos e mapeamos novos habitats, e tivemos surpresas também, como encontrar habitats desconhecidos. Essa é sempre a grande emoção de todo esse projeto”, exalta o coordenador da expedição. 

Coleta de sedimentos

Roberto Barcellos, professor de oceanografia da UFPE que também integrou a expedição, foi o responsável pela coleta de sedimentos do assoalho oceânico – areia, cascalho e lama (foram 11 amostras coletadas nessa edição). Ele endossa o coro de Mauro e diz que conhecer os substratos é entender o processo de crescimento no fundo do mar, como esses animais se comportam e como já é perceptível as mudanças no habitat, como o aumento do branqueamento de corais no litoral brasileiro.  
 
“Fizemos o mapeamento dos fundos duros (corais, rodolitos, algas calcárias) e dos sedimentos. O mapeamento é essencial para entendermos por que determinados organismos se associam a determinados tipos de fundo. E, para refinar essa análise dos sedimentos, faremos a análise elementar da matéria orgânica carbono-nitrogênio, que indica a quantidade de material que chega no fundo, além da análise isotópica, que indica a origem do material que pode ser plâncton, plantas superiores, vegetais do continente, óleo advindo de vazamento de petróleo, esgoto”.

O professor diz ainda que, no meio do Oceano, provavelmente, o estudo vai ter um caráter ecológico para conseguir identificar o quanto de material de biomassa viva está depositando no fundo e a sua origem, se é plâncton, ictiofauna (o conjunto de espécies de peixes de uma região), bentos (organismos que vivem no fundo de ecossistemas aquáticos).

“Paralelamente, coletei também sedimentos para analisar os hidrocarbonetos alifáticos (compostos orgânicos formados por carbono e hidrogênio, a exemplo de propano, butano e gasolina), que vão refinar a origem da matéria orgânica”, finaliza Roberto.

Toda a viagem foi registrada nas redes sociais do projeto @recifesmontesoceanicos, além das gravações das transmissões online da @sassanga.sub no canal dos @recifesmontesoceanicos do YouTube, onde mais informações foram compartilhadas, não só para especialistas da área, mas para todos aqueles que querem entender melhor sobre a importância e necessidade de expedições como essas para a conservação da natureza, a criação e ampliação de áreas marinhas protegidas e o enfrentamento dos extremos climáticos.  

Números da IX Expedição*:

Dias de expedição (21 a 28/11/2025) 8 dias
Dias de mapeamento sobre os bancos 6 dias
Distância total percorrida (476 milhas náuticas) 883 km
Distância percorrida sobre os bancos 225,6 km
Número total de perfis de vídeo 42 perfis
Comprimento total dos perfis de vídeo 44.8 km
Total de horas de gravação submarina 62 horas
Número de arquivos de vídeo 42 arquivos
Tamanho total dos arquivos de vídeo 48 GB
Número de registros batimétrico (profundidade) ~114.000
Número de amostras de sedimento 11 amostras

Confira os vídeos da expedição:
 

 

Imagem capturada pelo Sassanga, sistema de vídeo que transmite imagens submarinas em alta resolução
© UFPE / ICMBio
Equipe da expedição analisa imagens dos Montes Ocêanicos
© Roberto Barcelos
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