novembro, 16 2025
Por Fábio de Castro, especial para o WWF-Brasil
Um dos destaques da sexta-feira (14) na COP30 foi o painel “Financiamento climático na perspectiva do Sul Global”, realizado pelo WWF-Brasil no Pavilhão WWF, na Zona Azul. No evento, mediado por Fernanda Carvalho, Líder Global de Políticas Climáticas e Energéticas do WWF, especialistas debateram ações para garantir um financiamento justo, adequado e eficaz para mitigação, adaptação e perdas e danos – e enfatizaram que o papel da COP30 é promover o financiamento climático, ampliando as fontes, diversificando as modalidades e fortalecendo os fluxos públicos e privados.
Pedro Rossi, vice-presidente do Global Fund for a New Economy, afirmou que, para enfrentar a crise climática, é preciso integrar o desenvolvimento ao financiamento, desmistificar as fronteiras fiscais e adotar um novo paradigma econômico que priorize a solidariedade e desafie as estruturas internacionais existentes.
“Uma estratégia de desenvolvimento precisa evitar novas formas de dependência. Nem sempre, quando participamos de fóruns do Norte Global, consideramos essa perspectiva. Precisamos pensar em como os países do Sul devem desenvolver sua estrutura para não se tornarem mais dependentes da tecnologia - e, portanto, precisamos falar sobre transferência de tecnologia, para que não enfrentemos mais assimetrias no sistema internacional”, declarou Rossi.
Rossi destacou também que é importante desmistificar as restrições fiscais no debate sobre o clima. Segundo ele, é preciso mudar o foco da discussão do privado para o público. “As pessoas impõem muitas restrições à política fiscal, dizendo que os países não têm dinheiro, que é preciso falar sobre financiamento privado. Mas a política fiscal nada mais é do que a forma como escolhemos, politicamente, alocar os recursos. Precisamos mudar o debate sobre política fiscal se quisermos realmente enfrentar a crise climática. A questão central aqui é a mobilização de recursos. E a verdadeira mobilização de recursos não acontece sem uma política fiscal pública e investimentos reais dos países”, destacou.
Segundo Iago Montalvão, coordenador executivo no Transforma-Unicamp, o financiamento e o investimento públicos devem estar no centro da transição climática, exigindo uma reforma estrutural da arquitetura financeira internacional para resiliência, equidade e sobrevivência planetária, especialmente no Sul Global. “O Estado não pode ser apenas um mero veículo para o risco e para o fornecimento de capital. Muitos setores verdes, especialmente aqueles que estão em estágios iniciais de maturidade tecnológica ou industrial, simplesmente não conseguem gerar os retornos necessários para atrair investidores privados em escala. E isso é ainda mais evidente no caso da adaptação, onde o valor social é alto, mas a rentabilidade privada, na maioria das vezes, é baixa”, afirmou Montalvão.
O especialista da Unicamp explicou que, do ponto de vista técnico, já há instrumentos que podem ser ampliados, como direitos especiais de saque, linhas de concessão sustentável em bancos multilaterais de desenvolvimento, débitos para swaps climáticos, mecanismos internacionais de liquidez para taxar combustíveis fósseis e a renda dos mais ricos. Essas ferramentas podem fornecer liquidez, reduzir o endividamento, criar espaço fiscal necessário para o investimento climático de longo prazo sem agravar a vulnerabilidade fiscal dos países do Sul global.
“Mas o financiamento por si só não basta. Sabemos disso porque os países, especialmente os mais pobres, precisam da capacidade institucional e técnica para transformar esses financiamentos em resultados concretos em infraestrutura resiliente, em sistemas de energia renovável, em agricultura adaptada ao clima e em industrialização verde em geral. É preciso apoiar a preparação de projetos, as capacidades do setor público, o planejamento de longo prazo no Sul Global. Tudo isso é tão importante quanto a mobilização do próprio capital”, acrescentou.
Esmyra Javier, do Banco Asiático de Desenvolvimento, destacou a perspectiva dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) em relação ao Roteiro Baku-Belém, enfatizando a importância da escala, da qualidade e equidade no financiamento climático. “Se formos medir o sucesso do Roteiro Baku-Belém, não podemos nos basear apenas em números ou metas. Precisamos analisar como o sistema de financiamento climático funciona, qual sua escala e qualidade. O financiamento deve ser mais previsível, com taxas de juros mais acessíveis e alinhado aos objetivos do Acordo de Paris”, declarou.
Segundo ela, também deve haver um elemento de equidade, em que os países vulneráveis tenham acesso mais fácil, talvez processos mais simples, além de custos de transação mais baixos, transparência e responsabilidade. “A partir disso, podemos ver o Roteiro Baku-Belém como um guia prático para a ação.”.
David McCauley, consultor sênior em Finanças do Clima e da Natureza que já atuou no WWF e no Banco Asiático de Desenvolvimento, foi um dos especialistas que revisou a primeira versão do Roteiro Baku-Belém elaborada pelo Círculo de Ministros da Fazenda da COP30, afirmou que a versão final do documento apresentou grandes melhorias.
“Eles ouviram a sociedade civil e várias outras partes interessadas que deram feedback ao longo do processo. A versão final ajudou a trazer os ministérios das finanças e suas perspectivas para a mesa de negociações. Acredito que o trabalho deste roteiro, daqui a cinco anos, será medido pelo sucesso em trazer essa perspectiva e a atuação dos ministérios das finanças do mundo todo para as negociações, principalmente nos mercados emergentes e países em desenvolvimento”, disse MacCauley.
De acordo com ele, os bancos multilaterais de desenvolvimento (BMDs) estão tentando trabalhar coletivamente, desempenhar papéis e atuar com os bancos regionais de desenvolvimento de forma mais colaborativa. “Algumas dessas questões sobre o montante e a simplificação do acesso - seja por meio dos fundos multilaterais para o clima ou pelos próprios bancos multilaterais de desenvolvimento, assim com a ampliação de fontes de financiamento, estão sendo debatidas de forma muito mais aberta”, salientou. “Não apenas em um contexto de fluxos Norte-Sul, mas também no contexto de acesso mais amplo ao capital, bem como nas considerações de equidade e nos aspectos de justiça, que estão ganhando mais destaque.”