Debates e partilha de experiências marcam “Dia da Restauração” na COP30

novembro, 21 2025

Seis painéis abordaram desde projetos com resultados concretos até os desafios de financiamento e de expansão em larga escala no Brasil e no mundo

Por Débora Rubin, especial para o WWF-Brasil

Em seis painéis realizados ao longo da última terça-feira (18), participantes de diferentes países debateram a restauração de ecossistemas. “O tema da restauração traz muitas histórias positivas”, destacou Kirsten Schuijt, diretora geral do WWF Internacional, ao abrir a primeira sessão realizada no Pavilhão WWF da COP30, no âmbito da Década da Restauração de Ecossistemas (FAO e UNEP), em conjunto com GPFLR e Union for Restoration. Kirsten salientou que restaurar é uma solução transversal que integra clima, biodiversidade, inclusão social e desenvolvimento sustentável.

Com a abertura de Taruhim Quadros, líder de Restauração do WWF-Brasil, a série de debates começou com o “Café da Manhã Ministerial de Alto Nível: Dos Planos ao Impacto Global”,  reunindo líderes de entidades como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura para reforçar a visão sistêmica da restauração como solução transversal que conecta clima, biodiversidade, uso da terra e inclusão social. 

Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil e moderador do painel, afirmou que a restauração de ecossistemas conquistou espaço gradualmente nas Conferências do Clima, mas hoje é reconhecida como uma das principais soluções para a crise climática. Ele também ressaltou o protagonismo do Brasil no contexto regional dessa  agenda, que inclui a América Latina e Caribe, contribuindo com modelos inovadores para mobilizar investimentos capazes de transformar paisagens em larga escala.

Anjali Goswami, do conselho científico do governo britânico, compartilhou sua experiência de três décadas acompanhando o tema, desde o estágio que fez no WWF-Índia nos anos 1990, ressaltando a importância da ciência nas ações de restauração.

Rita Mesquita, secretária Nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), destacou as metas ambiciosas do Brasil,  apesar da diversidade territorial e das peculiaridades nacionais: “O Brasil é criativo na hora de criar modelos para lidar com esse cenário diverso, que inclui propriedades privadas, áreas protegidas e áreas não designadas”, disse.

Durante a COP30, o Brasil anunciou que já alcançou cerca de 3,4 milhões de hectares em processo de restauração — aproximadamente 30% da meta nacional de 12 milhões de hectares. O resultado sinaliza um caminho concreto de contribuição às metas climáticas, embora ainda existam desafios e oportunidades importantes.

Participação social e restauração na prática

Dois eventos da manhã abordaram o papel das lideranças sociais em projetos de restauração comunitária e ações concretas sendo implementadas no Brasil e no mundo. Os debates reforçaram que a inclusão é um pilar da agenda de restauração, com comunidades, povos indígenas, agricultores familiares e juventude não apenas como beneficiários, mas protagonistas e provedores de soluções.

No painel “Liderança social em ação: restauração comunitária e territorial em larga escala”, Nahuel Gravano, da Fundação Hora de Obrar (Argentina), enfatizou a importância de ouvir as comunidades: “Não podemos trazer soluções enlatadas que se ensinam em oficinas.”

Chetan Kumar, Líder Global de Florestas e Savanas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), complementou: “Um dos maiores desafios dos projetos em larga escala é justamente fazer intervenções locais. Não existe a mesma solução para todos os lugares.”

O terceiro painel, “Das promessas à prática: desbloqueando a implementação da restauração em múltiplos níveis”, contou com Amy Duchelle, que apresentou experiências da Década da ONU (2021-2030) voltada a ecossistemas degradados, e Rueban Manokara, que levou exemplos de restauração do WWF na África e Ásia. Participaram ainda Niels Peter Norring, do governo da Dinamarca, e Juliana dos Reis, com exemplos recentes do governo do Espírito Santo.

Financiamento público e privado

No período da tarde, os debates focaram em financiamento e o papel do setor corporativo na restauração. No painel “Financiamento da restauração em larga escala: caminhos inovadores”, moderado por Damian Fleming, do WWF Internacional, Paola Ridolfi, do Conselho de Mudanças Climáticas do Banco Mundial, falou sobre taxonomia sustentável — ferramenta que orienta o mercado financeiro a investimentos climáticos — e destacou a importância de engajar os setores corporativo e financeiro.

André Aquino, assessor especial do MMA, celebrou o momento: “Nunca, em toda a minha carreira, vi tamanho mutirão de ONGs, pessoas, governos, juntos no esforço técnico e político para fazer da natureza e do clima o verdadeiro centro desta COP30.” Ele citou ainda as metas ambiciosas da NDC brasileira, programas nacionais de restauração e linhas de financiamento governamentais voltadas a empresas.

Entre os mecanismos anunciados no Dia da Restauração estão: GEF Restaura Biomas; Financial Facility; Catalyst Trinacional; decreto do Espírito Santo; e publicação da Década da ONU.

Rubens Benini, líder de Floresta e Restauração na América Latina da The Nature Conservancy, lembrou a Flagship da Mata Atlântica, reconhecida pela ONU, fruto do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que reúne 360 membros de diversos setores da sociedade.

Ja Patrícia Feliciano, da Accenture, apresentou uma plataforma que apoia decisões de grandes empresas interessadas em investir em restauração, enquanto Viviane Behar abordou o trabalho da Capital for Climate no suporte a empresas que buscam projetos com Soluções Baseadas na Natureza.

Taruhim Quadros e Bárbara Bomfim, anfitriãs do dia, reforçaram a importância do financiamento e do papel das ONGs: “A restauração é uma solução completa, que une clima, biodiversidade, inclusão social e desenvolvimento – liderada por comunidades, fortalecida por governos, apoiada por ciência e viabilizada por modelos financeiros inovadores.”  
O painel “Ampliando a restauração por meio de financiamento de carbono de alta integridade para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, mediado por Bárbara Bomfim, da área de Mercado de Carbono do WWF-Brasil, apresentou exemplos de projetos de carbono de diversas regiões, incluindo Quênia, Nigéria e Singapura.

Exemplos replicáveis

O último painel do dia, “Investindo na natureza: o papel das lideranças corporativas na ampliação de Soluções Baseadas na Natureza”, contou com representantes da Nestlé, do BNDES e do WWF, e foi mediado por Daniela Teston, diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil. Foram apresentados exemplos replicáveis, como os fornecedores de matéria-prima da Nestlé e projetos citados por Agnete Schoenau Winther, do WWF-Dinamarca e Groenlândia.

“Quero compartilhar o exemplo da empresa Velux, nossa parceira há mais de vinte anos, que se comprometeu a zerar as emissões de CO2 até 2040”, disse Agnete. “É um exemplo inspirador.”

Josefina Braña Varela, vice-presidente de Florestas do WWF-US, destacou cinco grandes projetos projetos de restauração conduzidos pela instituição, detalhando o do México, no estado de Yucatán: “Com parceiros corporativos, fizemos três intervenções importantes: 15% do território ficará sob proteção permanente; criamos corredores de restauração para proteger as onças e um centro comunitário; e focamos na restauração dos mangues — 60% de todo o mangue do país está ali.”

Rodrigo Tosta, do BNDES, concluiu ressaltando a importância de o setor financeiro conhecer melhor os projetos ambientais e de as empresas entenderem melhor as linhas de financiamento focadas no meio ambiente.

Fique de olho!

“Quando engajamos profundamente as comunidades na restauração de paisagens florestais e elas de fato percebem os benefícios de fazer essa restauração, estamos abordando três questões ao mesmo tempo: a mudança climática - incluindo mitigação e adaptação -, a conservação da biodiversidade e as questões envolvendo os meios de subsistência e o desenvolvimento econômico.”
Kirsten Schuijt, diretora geral do WWF Internacional
 
“As ações de restauração mudaram de escala, de projetos pilotos para intervenções de escala verdadeiramente ampla. Temos visto cada vez mais financiamento, políticas e programas voltados para restauração em todo o mundo e o Brasil é um dos países que está liderando essa agenda mundialmente.”
Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil
 
“Já fui a muitas COPs, mas essa parece realmente diferente no sentido de que as coisas estão efetivamente acontecendo.”
Damian Fleming, WWF Internacional
 
“É essa a perspectiva que temos do WWF, das ONGs, da sociedade civil: a de que somos os catalisadores, que devemos ser a ponte entre todos que estão aqui e os que realizam a implementação das ações nos territórios. É o nosso papel, no qual já estamos atuando.”
Taruhim Quadros, líder de Restauração do WWF-Brasil
 
“A natureza não é só a vítima - é vítima das ações humanas, claro, mas também parte da solução. Soluções baseadas na natureza podem reduzir em um terço as emissões que precisamos até 2030, com todos os benefícios envolvidos, restaurando ecossistemas, ofertando água potável e comida.”
Anjali Goswami, conselho científico do governo britânico
 
“Quem sabe como cantam os pássaros, como corre a água? Quem está ali no território. Isso não está nos formulários das organizações.”
Nahuel Gravano, da Fundação Hora de obrar, da Argentina
 
“Nos últimos dois anos, estamos vendo esforços conjuntos que formam fundos imensos, de milhões de dólares, focados no clima.”
Viviane Behar, da Capital for Climate
 
“Acreditamos que existe uma grande oportunidade com o uso de IA e de dados para apoiar decisões inteligentes nos projetos que envolvem questões climáticas, inclusive com análises de riscos e projeções de escala.”
Patrícia Feliciano, da Accenture
 
“O Pacto pela Restauração da Mata Atlântica tem metas ambiciosas: 1 milhão de hectares restaurados até 2030, e 15 milhões de hectares restaurados até 2030. Flagship não é só um título, é um compromisso.”
Rubens Benini, líder de Floresta e Restauração na América Larina da The Nature Conservancy
 
“Política pública é o nosso guarda-chuva, é onde operamos, é o que nos guia.”
Rodrigo Tosta, de Finanças Sustentáveis do BNDES
 
“Pedimos que respeitem as consultas aos indígenas e que se valorize o papel das mulheres nos projetos de restauração e conservação. Não podemos perder de vista que trabalhar com restauração é trabalhar com direitos humanos.”
Lorena Terrazas, ativista indígena boliviana

Em seis painéis realizados ao longo da última terça-feira (18), participantes de diferentes países debateram a restauração de ecossistemas. “O tema da restauração traz muitas histórias positivas”, destacou Kirsten Schuijt, diretora geral do WWF Internacional
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
A série de debates começou com o “Café da Manhã Ministerial de Alto Nível: Dos Planos ao Impacto Global”, reunindo líderes de entidades como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura para reforçar a visão sistêmica da restauração como solução transversal
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
Entre os mecanismos anunciados no Dia da Restauração estão: GEF Restaura Biomas; Financial Facility; Catalyst Trinacional; decreto do Espírito Santo; e publicação da Década da ONU
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
Durante a COP30, o Brasil anunciou que já alcançou cerca de 3,4 milhões de hectares em processo de restauração — aproximadamente 30% da meta nacional de 12 milhões de hectares
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
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