Cinco anos conectando pessoas, florestas e água na Mata Atlântica

novembro, 05 2025

Nos últimos cinco anos, as ações de restauração implementadas na Mata Atlântica resultaram na recuperação de mais de 700 hectares, com o plantio de 600 mil mudas nativas e o fortalecimento de comunidades em 33 municípios de seis estados — mostrando que investir em floresta é também investir em água, clima, biodiversidade e pessoas.

Por Maria Fernanda Maia, do WWF-Brasil

Socorro (SP), 23 de outubro de 2025 – Em meio à Década da Restauração de Ecossistemas da ONU, o WWF-Brasil e diversos parceiros locais celebram os avanços da primeira fase do projeto “Restauração da Mata Atlântica: Corredores de Vida e Segurança Hídrica”, que desde 2020 atua na recuperação de áreas prioritárias do bioma e na proteção das nascentes e bacias que abastecem milhões de pessoas. 

Para marcar essa etapa, o evento Conexões Vivas para a Restauração da Mata Atlântica reuniu, nos dias 22 e 23 de outubro, especialistas de 11 organizações duas redes estratégicas do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e da Rede Trinacional pela Restauração da Mata Atlântica na sede da Associação Copaíba em Socorro (SP). O encontro celebrou os cinco anos de parceria e os resultados concretos alcançados em campo — refletindo sobre os próximos passos para ampliar o impacto da restauração no país. 

Um bioma essencial e ameaçado

A Mata Atlântica é um dos 36 hotspots (áreas prioritárias com alta biodiversidade e alto grau de ameaça) globais, abrigando mais de 20 mil espécies de plantas e 2 mil de vertebrados, das quais grande parte é endêmica (só existe no bioma). Apesar disso, restam menos de 24% de sua cobertura original, distribuída em fragmentos que precisam ser conectados para garantir a sobrevivência da fauna, a regulação climática e a segurança hídrica. 

A iniciativa promove a restauração ecológica e produtiva em paisagens estratégicas das regiões da Serra do Mar, Serra da Mantiqueira e do Alto Paraná, com foco na recuperação de corredores de biodiversidade e mananciais de abastecimento — como as bacias dos rios Paraíba do Sul, Mogi Guaçu e Iguaçu, que juntos garantem água para mais de 20 milhões de pessoas. 

Os números

Durante anos de implementação, o projeto restaurou mais de 700 hectares de florestas nativas, com o plantio de 600 mil mudas de espécies da Mata Atlântica, beneficiando diretamente 33 municípios em seis estados brasileiros (SP, RJ, MG, PR, MS e RS). 

Essas ações geraram 120 empregos diretos e fortaleceram cadeias locais de restauração por meio da contratação de 16 empresas regionais especializadas em viveiros, coleta de sementes, plantio e manutenção das áreas restauradas. A iniciativa também consolidou parcerias com universidades e centros de pesquisa, promovendo estudos sobre pagamento por serviços ambientais, sequestro de carbono e modelos produtivos sustentáveis. 

Investir em floresta é investir em água, clima e pessoas. Cada hectare restaurado representa um passo concreto para garantir o bem-estar das populações que vivem na Mata Atlântica. “Restauração vai muito além do plantio de árvores. É muito incrível ver as fotos de antes e depois de cada hectare restaurado, mas mais incrível é ver o fortalecimento institucional de cada parceiro local e rede estratégica ao longo dos últimos cinco anos”, destaca Daniel Venturi, líder da estratégia de Mata Atlântica do WWF-Brasil e da parceria com WWF-US/HP.

Conectando paisagens e comunidades 

O impacto do projeto se estende da ecorregião das Florestas do Alto Paraná à Serra do Mar e Mantiqueira, dois territórios vitais para a segurança hídrica e a biodiversidade do país. 

Na Ecorrgião do Alto Paraná, foram restaurados 192 hectares com o plantio de 216 mil mudas, gerando 24 empregos diretos e beneficiando comunidades rurais em áreas de recarga do Aquífero Guarani — o maior reservatório transfronteiriço de água doce subterrânea do planeta. O projeto contribuiu para proteger as bacias dos rios Paraguai e Paraná e fortalecer parcerias locais com o Instituto Curicaca e a Mater Natura. 

Na Serra do Mar (SP), a atuação abrangeu 358 hectares restaurados com 187 mil mudas nativas, além de 101 postos de trabalho gerados e 48 proprietários rurais beneficiados. As ações ocorreram em municípios estratégicos como São Luiz do Paraitinga, Cunha, São José dos Campos e Cruzeiro — conectando fragmentos florestais de alta importância ecológica, como os Parques Estaduais da Serra do Mar e da Mantiqueira. 

“Ser ambientalista na Mata Atlântica é um ato revolucionário. No Brasil, tudo parece girar em torno da Amazônia — mas aqui estamos, mostrando que também é possível fazer gestão, proteger e restaurar uma Mata Atlântica que ainda está de pé. Tem gente zelando por ela, e isso é transformador”, afirma Jéssica Marques, diretora da SerrAcima, organização parceira no Vale do Paraíba. 

Para quem vive o dia a dia da restauração, o impacto é visível em cada hectare. “Você chega a uma área que era totalmente degradada e, quatro anos depois, vê o ambiente se transformando. Ainda há muito pela frente, mas ver a floresta voltando, o solo vivo, os bichos retornando... isso não tem preço. Pra quem trabalha com a restauração, é profundamente gratificante”, relata Fabiano Haddad Collard, engenheiro agrônomo responsável pelos projetos ambientais do Sindicato Rural de Cruzeiro. 

No Rio de Janeiro, o projeto recuperou 45 hectares em seis municípios, entre eles Petrópolis, Teresópolis e Guapimirim, com o plantio de 75 mil mudas. As ações beneficiaram indiretamente mais de 500 mil pessoas, reforçando a resiliência das bacias do médio Paraíba do Sul e contribuindo para o abastecimento de água da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

“O que a gente percebeu nesse projeto é que colocar o componente socioambiental dentro da restauração é essencial. A floresta não é feita só de árvores — é feita de gente, de relações e de vida que se sustenta em conjunto”, compartilha Aline Damasceno de Azevedo, Coordenadora de Restauração da Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), uma das maiores restauradoras de ecossistemas florestais do estado do Rio de Janeiro. 

Ciência, governança e inovação como legados 

A força do projeto vai além dos números. O trabalho colaborativo entre ONGs, setor privado, governos, universidades e comunidades locais resultou em uma rede de governança fortalecida, capaz de garantir a continuidade e a legitimidade das ações de restauração. 

  • Restauração ecológica, com aumento da cobertura vegetal e recuperação de habitats para espécies ameaçadas; 
  • Impacto socioeconômico, com geração de emprego e renda em cadeias sustentáveis; 
  • Engajamento comunitário, com mais de 120 eventos, oficinas e mutirões; 
  • Articulação institucional, promovendo diálogo e políticas públicas integradas entre diferentes atores. 

Esses resultados reforçam o papel da restauração como vetor de desenvolvimento territorial, estimulando a bioeconomia e a gestão participativa da paisagem. 
“A restauração de ecossistemas exige tempo, continuidade e presença nos territórios. É um trabalho de longo prazo, que só ganha consistência quando há permanência nas paisagens e envolvimento das comunidades locais. A cada ciclo, a floresta se fortalece — e junto com ela, as pessoas e as economias que dependem desse equilíbrio. É isso que dá sentido às parcerias: transformar a restauração em um processo vivo, que regenera tanto a natureza quanto as relações que a sustentam”, afirma Taruhim Quadros, líder da Estratégia de Restauração do WWF-Brasil. 

Conexões que inspiram o futuro 

O evento “Conexões Vivas para Restauração da Mata Atlântica” encerrou essa primeira fase de forma simbólica e propositiva. A programação incluiu painéis sobre governança territorial, reflexões sobre lições aprendidas e caminhos para manutenção do legado, além de um plantio coletivo de árvores e atividades de campo que aproximaram parceiros e comunidades. 

Participaram do evento representantes das seguintes instituições: 

  • Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais 
  • Instituto Curicaca 
  • Associação Ambientalista Copaíba 
  • Sindicato Rural de Cruzeiro e Lavrinhas 
  • Akarui 
  • SerrAcima 
  • IF Sul de Minas - Núcleo Inconfidentes 
  • Pacto pela Restauração da Mata Atlântica 
  • Rede Trinacional de Restauração da Mata Atlântica 
  • Grupo Dispersores 
  • HL Topografia  
  • REGUA - Reserva Ecológica Guapiaçu 
  • Instituto Caminho da Mata Atlântica
  • SAVE Brasil 

Sobre o WWF-Brasil 

O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 29 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo o país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados em uma rede global que busca soluções urgentes para a emergência climática. Conheça: https://www.wwf.org.br

 

Aline Damasceno de Azevedo, Coordenadora de Restauração da Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), durante atividade do evento Conexões Vivas para a Restauração da Mata Atlântica, em Socorro (SP)
© Tuane Fernandes / WWF-Brasil
Fabiano Haddad Collard, engenheiro agrônomo do Sindicato Rural de Cruzeiro, apresenta resultados das ações de restauração apoiadas pelo projeto em São Paulo
© Tuane Fernandes / WWF-Brasil
Participantes do evento Conexões Vivas para a Restauração da Mata Atlântica durante atividade de troca de experiências e planejamento coletivo, em Socorro (SP)
© Tuane Fernandes / WWF-Brasil
Representantes de organizações participantes realizaram plantio simbólico em área de restauração da Mata Atlântica no município de Socorro (SP)
© Tuane Fernandes / WWF-Brasil
Equipe do projeto e parceiros locais celebram os cinco anos da parceria para restauração da Mata Atlântica durante o Conexões Vivas, em Socorro (SP)
© Tuane Fernandes / WWF-Brasil
DOE AGORA
DOE AGORA