Desmatamento zero é crucial para o enfrentamento da crise climática

outubro, 09 2025

Do preço do café à conta de luz, entenda como a destruição da Amazônia afeta o Planeta e prejudica também o seu bolso

Por Aryanna Serafim, do WWF-Brasil 

Você provavelmente se lembra das ondas de calor que atingiram o Brasil nos últimos tempos. Não por acaso, 2024 foi o ano mais quente já registrado no Planeta, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMS). Além disso, fortes tempestades provocaram enchentes e inundações no Rio Grande do Sul, terminando em uma tragédia que deixou 183 mortos e 27 desaparecidos, de acordo com a Defesa Civil do estado. 

E o que esses eventos extremos têm em comum? São consequências da crise climática — que no Brasil vêm se agravando por causa de um fator importante: o desmatamento. 

Mesmo quem não sentiu na pele esses problemas, sofreu diretamente os seus impactos no bolso. O preço do café, por exemplo, acumulou alta de 48,6% desde agosto de 2024. Um dos motivos, conforme o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), foi a seca prolongada e o calor intenso que atingiram as plantações. 

Em Minas Gerais, responsável pela metade da produção nacional de café, 135 municípios decretaram emergência por causa da falta de chuva. Escassez de água que, em diferentes pontos do país, também prejudicou outro pilar da agricultura brasileira: a soja, impactando desde o preço do óleo de cozinha até da ração para animais e encarecendo ainda outros alimentos, como a carne. 

Desmatamento prejudica o clima 

É nesse ponto que o desmatamento mostra seu lado mais perigoso, pois a destruição da vegetação nativa contribui para o aumento da temperatura global. A Amazônia, por exemplo, tem um papel importante na regulação do clima. Suas árvores liberam vapor d’água na atmosfera, formando os chamados “rios voadores” — correntes de umidade que viajam pelo céu e levam chuvas para outras regiões do Brasil. 

Mas, quando a floresta é derrubada, esse ciclo natural se quebra. A consequência? Menos chuva, mais calor, mais seca — e menos condições para plantar alimentos. 

“Quando a temperatura sobe, ou o clima muda de forma mais intensa, áreas produtivas deixam de ser adequadas para o plantio. Isso leva à quebra de safra e ao aumento dos preços dos alimentos”, explica Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil. 

Está tudo conectado 

E acontece uma espécie de efeito dominó. Além dos alimentos, o clima desregulado afeta também o preço da energia. No final de agosto, a Aneel manteve a bandeira vermelha patamar 2 na conta de luz, o que significa um adicional de R$ 7,78 a cada 100 kWh consumidos. Um dos motivos foi a falta de chuva, que diminuiu o nível dos rios e dos reservatórios das hidrelétricas.  

Como o Brasil gera a maior parte da sua energia a partir da água, nas hidrelétricas, quando os reservatórios ficam vazios, é preciso usar as termelétricas — que são mais poluentes e mais caras. Ou seja: com menos árvores, há menos chuva. Com menos chuva, há menos água nos rios. E com menos água nos rios, a energia fica mais cara. 

As árvores também armazenam carbono. Quando são cortadas ou queimadas, esse carbono é liberado na forma de gases que aumentam o aquecimento do planeta, o chamado efeito estufa. E isso piora ainda mais o ciclo de calor, secas e desastres climáticos.  

Expansão agropecuária 

No Brasil, o principal motivo do desmatamento é a expansão da agricultura e da pecuária. Ou seja, a vegetação é derrubada para abrir espaço para criação de gado ou plantações em larga escala, como de monocultura de soja, apesar de estudos já terem demonstrado que não é necessário abrir mais nenhum milímetro de terra para ampliar a produção nacional.  

Dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mostram que, no período de agosto de 2024 a julho de 2025, foram desmatados 4.495,32 km2 na Amazônia, um aumento de 4,02% em comparação aos 12 meses anteriores.  

Já no Cerrado, mesmo reduzindo o desmatamento em 20,8%, o bioma continua liderando em área total desmatada, registrando 5.555Km2 entre agosto de 2024 e julho de 2025.  No Pantanal, os alertas de supressão da vegetação diminuíram em 72%, um resultado bastante positivo para a preservação do bioma. No entanto, as marcas deixadas pelo fogo ainda são preocupantes: em 2025 foram registradas 16.125 km² de áreas queimadas. 

Já segundo o MapBiomas, o Brasil perdeu cerca de 876.000 km2 de florestas naturais entre 1985 e 2022. A maior parte da destruição aconteceu na Amazônia (13%) e no Cerrado (27%), que tiveram as maiores perdas percentuais, sendo principal cobertura destas terras desmatadas atividades agropecuárias.  

Desmatamento zero é possível 

Eliminar o desmatamento é uma das formas mais eficazes de combater a crise climática. E o melhor: já existem soluções. 

O Brasil, por exemplo, tem mais de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas — ou seja, áreas já abertas, porém mal aproveitadas. Com tecnologia e manejo sustentável, é possível aumentar a produção nessas áreas, sem derrubar uma única árvore.  

De acordo com o estudo Mobilização de capital catalítico para escalar expansão responsável de lavouras e pecuária no Brasil, publicado pelo WWF-Brasil em parceria com o Boston Consulting Group (BCG) e a iniciativa IFACC (Innovative Finance for the Amazon, Cerrado and Chaco), a recuperação de áreas já abertas — como as pastagens degradadas — pode multiplicar em até cinco vezes a produtividade da pecuária, contribuindo para atender à crescente demanda por alimentos sem a necessidade de novos desmatamentos. 

Além disso, o agronegócio que respeita o meio ambiente tem mais valor no mercado internacional. Investidores e consumidores do mundo todo exigem produtos com rastreabilidade e compromisso com a natureza. O desmatamento zero, portanto, não é um freio ao crescimento. Pelo contrário: é o caminho para que o Brasil lidere a nova economia de baixo carbono. 

Com a aproximação da COP30, que será realizada em Belém, o Brasil tem a chance de mostrar ao mundo seu papel de liderança na luta contra a crise climática. 

Proteger a biodiversidade e respeitar os povos e comunidades tradicionais não é apenas uma causa ambiental. É uma necessidade econômica, social e climática urgente. 

“É preciso tratar as mudanças climáticas, que já estão em curso, com mais seriedade e compromisso”, alerta Helga. 

A escolha está diante de nós: continuar assistindo à destruição que ameaça o nosso clima, a nossa economia e o nosso futuro — ou adotar o desmatamento zero como estratégia inteligente para construir um Brasil mais seguro, justo e sustentável. 

A Amazônia tem um papel importante na regulação do clima. Suas árvores liberam vapor d’água na atmosfera, formando os chamados “rios voadores”, correntes de umidade que viajam pelo céu e levam chuvas para outras regiões do Brasil
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
O preço do café acumulou alta de 48,6% desde agosto de 2024. Um dos motivos, conforme o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), foi a seca prolongada e o calor intenso que atingiram as plantações
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
No Brasil, o principal motivo do desmatamento é a expansão da agricultura e da pecuária
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
No período de agosto de 2024 a julho de 2025, foram desmatados 4.495,32 km2 na Amazônia, um aumento de 4,02% em comparação aos 12 meses anteriores
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
No Cerrado, mesmo reduzindo a o desmatamento em 20,8% continua liderando em área total desmatada, registrando 5.555Km2 entre agosto de 2024 e julho de 2025
© Moisés Muálem / WWF-Brasil
No Pantanal, os alertas de supressão da vegetação diminuíram em 72%. No entanto, as marcas deixadas pelo fogo ainda são preocupantes: em 2025 foram registradas 16.125 km² de áreas queimadas
© Silas Ismael / WWF-Brasil
Proteger a biodiversidade e respeitar os povos e comunidades tradicionais não é apenas uma causa ambiental. É uma necessidade econômica, social e climática urgente
© Tatiana Cardeal / WWF-Brasil
DOE AGORA
DOE AGORA