Desmatamento segue em alta na Amazônia, com 960 km² destruídos em maio

junho, 06 2025

Houve aumento de 92% na destruição do bioma em comparação a maio do ano passado e ministério detectou mudança de padrão da destruição, com maior impacto do fogo; Cerrado e Pantanal tiveram quedas de 15% e 65%, respectivamente, em relação a maio de 2024
Por WWF-Brasil

A Amazônia teve 960 km² com alertas de desmatamento em maio, um aumento de 92% em comparação ao mesmo mês no ano passado, quando foram registrados alertas em 502 km². No Cerrado e no Pantanal, houve quedas de 15% e 65%, respectivamente, em comparação a maio de 2024. Os dados são do Sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e foram divulgados à imprensa pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas nesta sexta-feira, 6 de junho.

Entre agosto de 2024 e o fim de maio de 2025, foram desmatados 3.502 km² na Amazônia, segundo os dados do Deter, cujo ano de referência tem início em agosto. O valor corresponde a um aumento de 9,1% em comparação ao período anterior (2023-2024), quando foram desmatados 3.186 km². Naquele período, porém, o valor havia caído mais de 50% em comparação ao período 2022-2023 (6,7 mil km²). Desde o período 2019-2020, o número oscilava por volta dos 6 mil km².

Com os dados indicando que o desmatamento segue alto na Amazônia, o enfrentamento da crise climática se torna ainda mais premente, de acordo com Alexandre Prado, líder em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil.
"No ano da COP 30, mais uma vez recebemos o alerta do extremo climático que o planeta está passando. Apesar de todos os avanços importantes que o Brasil vem fazendo no combate ao desmatamento, as consequências das mudanças climáticas já estão evidentes na Amazônia, com secas extremas que aumentam os incêndios florestais. Estamos perdendo centenas de quilômetros quadrados de floresta por mês — um ritmo incompatível com esta emergência climática que vivemos”, declarou Prado.

Segundo ele, manter a floresta em pé é essencial para proteger o clima, a biodiversidade, os povos da floresta e a qualidade de vida no planeta. “Não há Planeta B. Por isso, é hora de intensificar os esforços e unir toda a sociedade em torno de uma meta clara e ambiciosa já acordada pelos mais de 190 países que participam da COP: alcançar o desmatamento zero."

No Cerrado, foram desmatados 885 km² em maio de 2025, uma queda de 15% em comparação ao mesmo mês no ano passado (1.040 km²). Entre agosto de 2024 e maio de 2025, o bioma perdeu 4.583 km², uma queda de 22% em comparação ao período anterior (5.908 km²). Foi a primeira queda do desmatamento no Cerrado, no período de agosto a maio, desde a temporada 2028-2019.

No Pantanal, o mês de maio teve 18 km² devastados, uma queda de 65% em comparação a maio de 2024 (51 km²). No período de agosto de 2024 a maio de 2025, a queda foi de 74% em relação à temporada 2023-2024, passando de 1.035 km2 para 267 km². 

Fogo tem impacto cada vez maior

De acordo com o Secretário Executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, os números do desmatamento em maio na Amazônia não apenas representam “uma situação muito grave”, mas indicam também uma mudança no padrão histórico de destruição da floresta. Se antes a maior parte do desmatamento estava ligada ao corte raso da floresta, agora predomina a perda florestal por conta de incêndios relacionados às mudanças climáticas.

Segundo os dados divulgados, entre 2016 e 2022, o corte raso da floresta representava a maior parte do desmatamento na Amazônia nos meses de maio, enquanto que o percentual de áreas florestais colapsadas por ação do fogo - as chamadas cicatrizes de incêndios - variava entre 1% a 14%. Em maio de 2023 e de 2024, a área impactada pelo fogo subiu para 32% e 21%, respectivamente. Em maio de 2025, a destruição pelo fogo foi responsável por 51% do desmatamento, superando pela primeira vez a devastação por corte raso. 

“A perda de florestas registrada em maio de 2025 se deu em maior quantidade em função de incêndios florestais de grandes proporções relacionados às mudanças climáticas, mudando uma trajetória histórica. É um novo cenário que não conhecíamos”, afirmou Capobianco. Segundo ele, porém, esses incêndios provavelmente ocorreram no segundo semestre de 2024 e foram revelados nos dados de maio por conta da redução da cobertura de nuvens nesse período do ano.
O secretário explicou que, por conta do novo cenário, além do corte raso, o ministério solicitou que o Sistema Deter incorporasse os dados relacionados a cicatrizes de incêndios, que antes só eram abertos no sistema Prodes, do Inpe. Segundo Capobianco, nessa categoria são incluídos apenas os casos em que os incêndios são tão intensos que resultam no colapso da floresta, impedindo sua regeneração.

Para Ana Carolina Crisostomo, especialista em Conservação do WWF-Brasil, o impacto cada vez maior da crise climática na destruição dos biomas brasileiros torna ainda mais graves os ataques ao sistema de proteção ambiental feitos pelo Congresso Nacional, como a aprovação pelo Senado da nova legislação que afrouxa as regras de  licenciamento para empreendimentos com impactos no meio ambiente.

“Em um país onde o desmatamento e a agropecuária são os principais vetores de emissões de gases de efeito estufa, a flexibilização do licenciamento ambiental representa não apenas um risco, mas uma ameaça concreta à preservação dos biomas e à estabilidade climática. É a institucionalização de uma nova ‘boiada’, em total desacordo com os compromissos que o Brasil assumiu para zerar o desmatamento até 2030 e cumprir o Acordo de Paris. Trata-se de uma escolha que compromete o futuro do meio ambiente e da sociedade brasileira.”
Em maio de 2025, a destruição pelo fogo foi responsável por 51% do desmatamento, superando pela primeira vez a devastação por corte raso
© Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil
Entre agosto de 2024 e maio de 2025, o Cerrado perdeu 4.583 km², uma queda de 22% em comparação ao período anterior
© Marcio Sanches / WWF-Brasil
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