Caso Chevron: medidas severas têm que ser tomadas | WWF Brasil

Caso Chevron: medidas severas têm que ser tomadas



23 Novembro 2011   |  
Vazamento de óleo da empresa Chevron na bacia do Campo do Frade, no Rio de Janeiro
© Rogerio Santana/ Reuters
Além dos milhares de barris de petróleo que hoje poluem o oceano, degradando o ambiente e ameaçando a economia pesqueira, o caso Chevron também traz à tona questões de extrema importância, as quais o Brasil ainda não se dispôs a responder. Muito pouco se discute a respeito da segurança ambiental e climática relativa à exploração e ao uso do petróleo explorado pelo país.

Muitos setores do governo e do setor privado celebram cada descoberta de uma nova jazida de petróleo no Brasil, principalmente quando se trata das imensas reservas da camada pré-sal. Fazem parecer à sociedade que esta fonte de energia vinda das profundezas do oceano representa um manancial gigantesco de riquezas, a redenção econômica do país e a fonte de soluções para os problemas sociais do Brasil.

Hoje temos mais de 9 mil poços de petróleo sendo explorados no Brasil, no continente e em subsolo marinho. Nos próximos anos, teremos mais e mais poços de petróleo sendo abertos em áreas muito sensíveis, como a Amazônia e em meio a nosso rico ambiente marinho. Nos próximos 10 anos, pretende-se investir cerca de R$ 650 bilhões no setor de petróleo e gás no país, 67% de todo o aporte no setor energético no país. Tudo isso para explorar uma fonte de recursos que, apesar de sua importância, é fóssil, não-renovável e representa significativos riscos ambientais, contribuindo para intensificar as mudanças climáticas.

Explorar petróleo no Brasil não se restringe a uma mera decisão de aproveitar um recurso à disposição, aumentar a capacidade do país de atender às suas demandas de geração de energia ou abastecer o país com combustíveis nacionais. Extrair óleo das imensas reservas existentes e a serem descobertas no Brasil, no continente e principalmente no subsolo oceânico, significa também agravar problemas que afetam a todos, como o aquecimento global e suas consequências. Também implica correr riscos e aumentar a possibilidade de convivermos com severos e incalculáveis danos ambientais.
No ano passado, todos nós ficamos chocados com o vazamento de milhões de barris de petróleo no Golfo do México. Hoje, passado mais de um ano do ocorrido, estima-se que menos de 10% dos ecossistemas locais, afetados pela tragédia, tenham sido parcialmente recuperados. Os custos e danos para o meio ambiente e a economia das regiões afetadas foram gigantescos e terão repercussão em longuíssimo prazo.

No caso Chevron, no litoral fluminense, até agora os brasileiros não foram informados da real dimensão do problema. Não sabemos exatamente quantos milhares de barris de petróleo estão sendo jogados em nosso oceano a cada dia, não sabemos o quanto realmente já vazou (os números da empresa e das autoridades são contraditórios), quanto foi recolhido das águas. Não há clareza sobre as medidas adotadas e nem mesmo sobre quando se estima que o vazamento será controlado e interrompido. Fala-se em multas ambientais de milhões de reais. Mas, no Brasil, esse tipo de penalidade permite inúmeros recursos, que às vezes protelam o seu pagamento por anos, e os valores requeridos, em geral, são muito inferiores aos danos causados.

Petróleo no oceano, em área de tão grande importância para a economia pesqueira, e de extrema relevância ecológica para animais marinhos, como as baleias, que migram da Antártica para a Costa Brasileira a cada ano, representa prejuízos incalculáveis. Empresa e autoridades perecem confiar na capacidade das correntes oceânicas em dispersar a mancha de óleo e levar para longe dos brasileiros a dimensão do problema. Mas petróleo no mar é algo que não se dilui e seus efeitos se manifestam no curto, médio e longo prazo.

Há um crime ambiental de proporções enormes, mas ainda não conhecidas, acontecendo no Brasil agora e a situação exige muito mais que declarações públicas ou entrevistas. A empresa e as autoridades devem prestar contas de forma clara à sociedade. Os responsáveis devem ser severamente punidos, de fato, e não apenas com aplicação de multas. Todas as medidas necessárias para a contenção imediata do vazamento devem ser tomadas e planos de contingência e protocolos de monitoramento e segurança em todas as operações de exploração de petróleo no Brasil devem ser verificados e reforçados.
O Petróleo Brasileiro e o Aquecimento Global

Estima-se que cada barril de petróleo queimado gere, em média, entre 420 e 440 quilos de CO2 (não incluído nestas estimativas o carbono emitido ao longo da cadeia produtiva, nos processos de extração, transporte, refino e distribuição). Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil pretende passar de uma produção diária de cerca de 2,1 milhões de barris produzidos hoje para cerca de 6,1 milhões de barris de petróleo por dia em 2020, muito em decorrência da exploração do petróleo da camada pré-sal. Portanto, as emissões decorrentes da queima do petróleo brasileiro serão algo em torno de pelo menos 714 milhões de toneladas de CO2 anuais, algo entre 30 e 60 bilhões de toneladas de CO2 ao longo das próximas décadas. Isso sem falar nas potenciais emissões associadas à projetada produção de gás natural para 2020, de cerca de 52 bilhões de m3 por ano.

O Brasil deve, com muita responsabilidade, considerar como irá continuar a explorar o petróleo. A atmosfera da Terra não irá comportar tantos gases de efeito estufa decorrentes da queima de tanto combustível fóssil, seja do Oriente Médio, da Rússia, dos Estados Unidos, do Golfo do México, do Mar do Norte, da África, da Venezuela ou do Brasil.

Portanto, para o WWF-Brasil, é fundamental que, além de medidas severas para conter o vazamento, retirar o máximo possível do óleo derramado no litoral do Rio de Janeiro e punir os responsáveis de forma exemplar, o Brasil repense os multibilionários investimentos no setor de petróleo e gás no país e passe a investir muito mais no imenso potencial em energias renováveis modernas que o Brasil possui, para a produção de combustíveis de forma sustentável e na geração de eletricidade a partir de fontes limpas, seguras e de baixo impacto.

Vazamento de óleo da empresa Chevron na bacia do Campo do Frade, no Rio de Janeiro
© Rogerio Santana/ Reuters Enlarge

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