Untitled Document

Terra do Meio

Do alto, a imponência e beleza da cachoeira do Desespero, no rio Jari
A criação de unidades de conservação em forma de mosaico ajuda a conter a expansão pecuária e os conflitos fundiários
© Ibama / Christoph JASTER

A chamada Terra do Meio compreende um território de aproximadamente 7,6 milhões de hectares de florestas úmidas situadas na região sudeste do Estado do Pará, na bacia do rio Xingu, um dos grandes afluentes da margem direita do rio Amazonas. Estende-se sobre o território dos municípios de Trairão, Altamira e São Félix do Xingu.

Trata-se de uma vasta área que, exceto por incursões de madeireiras ilegais, se manteve praticamente isolada até pouco mais de cinco anos, devido a seu relevo montanhoso e à presença de um conjunto de terras indígenas a norte, sul e leste, que bloquearam o avanço das frentes de ocupação provenientes principalmente do Centro-Oeste. Seu curioso nome se deve exatamente a essa condição geográfica: estar situada no meio de várias terras indígenas.

O avanço da fronteira agrícola vinda do norte do Mato Grosso e o anúncio da realização de obras de infra-estrutura, como o asfaltamento da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e a construção da hidrelétrica de Belo Monte, desencadearam uma corrida sem escrúpulos pela posse das terras situadas entre os rios Xingu e Tapajós, onde está a Terra do Meio. Nesse processo, populações tradicionais têm sido expulsas, terras públicas griladas e milhares de hectares de florestas convertidos ilegalmente em pastagens de baixa rentabilidade.

Desde 2000, organizações da sociedade civil que defendem os direitos das populações da Amazônia e o meio ambiente reivindicam que o governo federal proteja a Terra do Meio, criando um conjunto de áreas protegidas contíguas às terras indígenas existentes.

Quando efetivamente implantada, essa rede de áreas protegidas de diferentes categorias, associada às terras indígenas já existentes, vão constituir um corredor ecológico de aproximadamente 25 milhões de hectares dentro da bacia do rio Xingu.


Aspectos físicos e biológicos

A Terra do Meio está integralmente contida na ecorregião Florestas Úmidas do Interflúvio Tapajós-Xingu, configurando hoje um dos últimos grandes territórios de florestas ainda sem proteção legal na Amazônia Oriental, ao sul do rio Amazonas. A exemplo do que ocorre em grande parte da Amazônia, o conhecimento científico sobre sua biodiversidade é ainda reduzido.

Entre as várias fisionomias florestais ali existentes, predomina a floresta ombrófila aberta mista, que recobre 51% da Terra do Meio, seguida pela floresta ombrófila densa (22%) e pela latifoliada (20%), concentrada mais ao sul da região. Também são encontradas formações campestres, aluviais e de ecótonos, que juntas compreendem 7% desse território de 7,6 milhões de hectares.

A paisagem da Terra do Meio é caracterizada por afloramentos rochosos e cadeias de montanhas nas porções leste e sudoeste, onde se destacam as serras do Pardo e do Estragado. Esses afloramentos emergem também ao longo do rio Xingu e afluentes, configurando várias corredeiras até suas águas alcançarem a planície Amazônica. Em torno de 80% dos solos da Terra do Meio são quimicamente pobres e ácidos, havendo, porém, uma expressiva mancha de terra roxa, de alta fertilidade, nas proximidades de São Félix do Xingu.

Essas características de solo e de relevo, somadas à intensidade das chuvas na região, indiciam uma diversidade biológica elevada. Ao mesmo tempo, o fato de Terra do Meio estar localizada entre dois grandes rios – o Tapajós e o Xingu, que funcionam como barreiras geográficas para o trânsito de certas espécies – permite supor a ocorrência de espécies endêmicas, ou seja, espécies exclusivas dessa região, o que aumenta muito o interesse por sua conservação.

Esse provável endemismo é válido especialmente para a ictiofauna, ou seja, para os peixes, já que acidentes geográficos como cachoeiras e corredeiras funcionam como barreiras naturais, que delimitam hábitats. De qualquer maneira, para se ter uma idéia da diversidade de peixes na Terra do Meio, um inventário preliminar realizado em 1990 em rios da região coletou 200 espécies em pouco mais de 10 dias.

design & tecnologia getunik.com