Pescadores usam smartphones para monitorar lagos do Acre | WWF Brasil

Pescadores usam smartphones para monitorar lagos do Acre



29 Junho 2015   |  
Damião Castro da Silva é um dos pescadores que tem usado os smartphones para monitorar os lagos da região de Feijó
© Antonio Oviedo
O ano de 2015 tem sido muito especial para os pescadores do município de Feijó, no Acre. A região, considerada pioneira no desenvolvimento de um plano municipal de pesca, deu mais um passo inovador rumo ao fortalecimento da atividade no local. Desde fevereiro, alguns deles têm usado, pela primeira vez, smartphones para monitorar lagos e a produção como forma de dar maior agilidade ao trabalho, ampliar as capacidades de monitoramento e precisão na coleta de informações do manejo do pirarucu e de outras espécies. A ação visa contribuir para a criação de um sistema formal de coleta de dados do pirarucu e da produção de pesca na região.
 
Na prática foram desenvolvidos três aplicativos (apps, em inglês) para que os pescadores de Feijó coletem desde dados socioeconômicos da população local, assim como informações sobre produção da pesca, práticas ilegais, danos ao ecossistema, entre outros. A iniciativa faz parte do Projeto Pesca Sustentável, parceria do WWF-Brasil e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do Fundo Amazônia, que em 2014 deu início ao monitoramento comunitário dos lagos manejados na região.
 
Aliar o trabalho de conservação com o uso de smartphones estimula a participação da comunidade e aumenta o engajamento para criar regras mais sustentáveis para a pesca. “O tempo de coleta das informações tem sido mais ágil e o armazenamento dos dados mais seguro. Isso também nos dá maior segurança na validação dos dados e amplia o conhecimento sobre os estoques pesqueiros”, afirma o especialista de pesca do WWF-Brasil, Antonio Oviedo.
 
O trabalho deu início com o monitoramento em seis lagos do município de Feijó. Os aplicativos operam em modo offline e, num período de 30 a 45 dias, o grupo de coletores voluntários se reúne no prédio da colônia de pescadores para compartilhar lições, aprendizados e baixar os registros. “Os coletores têm recebido treinamento para manusear os aplicativos e smartphones. Desde abril já fizeram 77 registros. A meta é que o trabalho seja ampliado para outros 15 lagos e uma terra indígena até dezembro de 2015”, explica Oviedo.
 
O monitoramento comunitário tem o objetivo de garantir a sustentabilidade e a sobrevivência do pirarucu e de outras espécies, pois estabelece as normas que regulam a atividade, por exemplo, as cotas de pesca, equipamentos e períodos permitidos, e número de embarcações autorizadas a estarem simultaneamente no lago. “É uma das melhores alternativas de curto prazo para reduzir de forma significativa a degradação florestal. Nesse contexto, o monitoramento é uma importante ferramenta para a compreensão dos impactos sobre a biodiversidade aquática. O uso da tecnologia traz métodos inovadores de conservação e dinamiza todo o processo”, afirma.
 
O engajamento de pescadores locais também assegura o sucesso dos esforços no manejo sustentável. Damião Castro da Silva, 30 anos, é um dos voluntários que apoiam o projeto. Morador da comunidade Aldeia Formoso, no município de Feijó, no Acre, ele tem monitorado o lago Sacado, próximo à sua residência, e acredita que o processo tem sido muito positivo. “Eu e meus colegas fazemos o trabalho de forma voluntária, pois achamos importante cuidar dos nossos lagos. A atividade fortalece nosso manejo pois podemos usar o smartphone para ver se o número de pirarucus está aumentando ou diminuindo. No início foi um pouco difícil manusear o equipamento, mas a cada dia que passa ganhamos mais confiança para fazer um bom trabalho”, avalia.
 
Aplicativos
O primeiro aplicativo chama-se Comunidade e faz um mapeamento socioeconômico da população local, coletando informações das casas, membros das famílias e a localização das residências por meio do GPS.
 
O segundo é o Observatório, que registra eventos que possam trazer impactos para as populações de peixes. Com o app é possível coletar dados sobre práticas ilegais de pesca, qualidade da água dos lagos, desmatamento, mortalidade de peixes, danos ao ecossistema, entre outros. Além disso, esse aplicativo oferece significativa contribuição para atender os requisitos de obtenção da certificação MSC do pirarucu. Isso porque para conseguir a certificação, ainda inédita no Brasil, é preciso comprovar que o manejo desse peixe não causa impacto para outras espécies ou ecossistemas.
 
 “É preciso redobrar a atenção durante a pesca em lagos com práticas de manejo do pirarucu: as espécies secundárias podem ser capturadas gerando impacto para suas populações. De acordo com as regras da certificação, as capturas de outros peixes devem ser menor que 3% do total”, explica Antonio Oviedo.
 
O último app é o Pesca+ que coleta dados sobre produção pesqueira e levanta, por exemplo, informações sobre o número de usuários dos lagos, tipos de embarcação, arreios de pesca utilizados, quantidade de insumos trazidos, tamanho e peso das espécies pescadas, entre outros.
 
Para Oviedo, tecnologias de código aberto (open source), tais como aplicativos de smartphones e ferramentas de mapeamento online, exercem um papel cada vez mais importante ao possibilitar às comunidades reunir dados sobre recursos e processos chave de maneira eficaz em termos de custos. “Essas novas tecnologias apresentam oportunidades para que as pessoas monitorem seu ambiente mais próximo e verifiquem como compreendemos, protegemos e melhoramos o meio ambiente”, conclui.
 
 
Damião Castro da Silva é um dos pescadores que tem usado os smartphones para monitorar os lagos da região de Feijó
© Antonio Oviedo Enlarge
Pescadores utilizando os smartphones nos lagos do Acre.
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Tela de um dos aplicativos
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Tela de um dos aplicativos
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Tela de um dos aplicativos
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