WWF Brasil - Clima: A transformação para um mundo sem carbono está andamento e não vai mudar

Clima: A transformação para um mundo sem carbono está andamento e não vai mudar



07 Abril 2017  | 
André Nahur (primeiro à esquerda) levantou as oportunidades do Brasil em uma economia de baixo carbono
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As últimas decisões do presidente norte-americano Donald Trump e a confirmação da saída da Grã-Bretanha da União Europeia deram o impulso inicial para a primeira audiência pública da Comissão Mista de Mudanças Climáticas, realizada nesta quarta-feira, dia 5, no Senado Federal. Presidida pelo senador Jorge Vianna (PT-AC), a reunião contou com a presença da Secretária-Executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, Patricia Espinosa Cantellano, além da participação do subsecretário-geral de Meio Ambiente do Itamaraty, o embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho, do secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis; do coordenador do programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur, do professor de Relações Internacionais da UNB Eduardo Viola;.

Primeira a falar, Patricia Espinosa evitou tratar de questões internas de outros países, mas buscou tranquilizar os presentes ao trazer relatos importantes sobre a questão climática no Brasil e no mundo. “Há esforços com múltiplos atores para colocar em marcha objetivos de desenvolvimento sustentável”, comentou Patrícia ao citar investimentos em energia renovável de países como China, além de iniciativas como Oil and Gas Climate Initiative, que reúne as 10 empresas mais importantes da Europa e de países em desenvolvimento em prol da redução de emissões.

“A transformação para um mundo sem carbono está andamento e não vai se modificar”, concluiu Patricia, antes de entrar em outro assunto: a Emenda de Doha, aprovada em 2012 e que até hoje não foi ratificada pelo Brasil. De acordo com ela, ao depositar a ratificação, o Brasil enviaria um sinal para que a Emenda entrasse em vigor e permitiria que os múltiplos processos que estão na pipeline tivessem possibilidade de implementação.
Representando o Itamaraty, o embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho defendeu fortemente que está na hora do Brasil sair do “modo legislador” para entrar no “modo implementador”. Marcondes elencou três grandes desafios para a luta contra as mudanças climáticas, algo que ele considerou como "inadiável" e "irreversível". O primeiro é trabalhar a conclusão do processo de regulamentação da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, a sigla em inglês) no âmbito das negociações internacionais. O Itamaraty pretende apresentar contribuições a esse processo até a Conferência do Clima das Nações Unidas de 2018 (COP 24). O segundo é a elaboração da estratégia nacional de implementação da NDC brasileira ao Acordo de Paris, que tem sido liderada pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) . Por fim, o terceiro desafio envolve efetuar ajustes necessários na área de governança para a internalização da prática de mudanças climáticas no Brasil.

“Temos trabalhado para que durante este ano até Bonn, na COP, possamos transformar discussões conceituais e ter um rascunho do livro de regras da regulamentação do Acordo de Paris”, concluiu Marcondes, relembrando a importância do engajamento da sociedade civil e academia.

Com fala mais incisiva, o secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis, levantou a necessidade imediata de diminuição de emissões brasileiras, especialmente no setor de desmatamento. Nos últimos anos, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer, com um aumento de 29% em relação ao mesmo período no ano anterior, o maior índice desde 2009. Ao lembrar o retorno do aumento de emissões, Sirkis classificou a situação como dramática: “Não podemos perder o que foi conseguido a duras penas”. De acordo com ele, para resolver o problema é fundamental uma reforma tributária que substitua determinados tributos por taxação de carbono, exima externalidades ambientais e estabeleça uma “verdade para os preços”, levando em conta custos que não são contabilizados.

O coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, André Nahur, que na ocasião representava também o Observatório do Clima, trouxe dados ressaltando a urgência climática – como a diminuição de capacidade de fotossínteses das plantas em temperaturas superiores a 40º C -, mas também as oportunidades que o Brasil poderia aproveitar ao migrar para uma economia de baixo carbono. “O relatório IES-Brasil, produzido pela Coppe/UFRJ, mostra que o cenário de descarbonização pode gerar aumento do PIB, do número de emprego e do potencial de compra em todas as classes. Outros dados mostram que empresas que têm um plano de contingência às Mudanças Climáticas têm um retorno 20% maior do que as que não têm”, comenta.

Nahur enfatizou também a importância dos governos subnacionais para a luta contra as mudanças no clima, em especial das cidades, onde vivem 66% da população mundial. “Hoje, quase 1700 cidades já se comprometeram com redução de emissões e só nos Estados Unidos, 34 estados têm planos de redução de emissões”.
Como solução, o coordenador do WWF-Brasil citou a importância de se manter os estoques de carbono na Amazônia e no Cerrado, por meio da implementação de economia florestal que gere valor para floresta em pé; a implementação da agricultura de baixo carbono e o aumento da energia alternativa renovável, em especial a micro e a minigeração por energia solar. “O Brasil tem matriz incomparável e potencial de chegar a 100% de eletricidade limpa. Colocando módulos fotovoltaicos em somente 0,03% do território, teríamos eletricidade para toda a demanda nacional”.

Por fim, o professor titular do Instituto de Relações Internacionais da UNB Eduardo Viola falou a respeito do cenário internacional de clima, com destaque para as recentes mudanças no governo dos Estados Unidos e a saída da Grã-Bretanha da Comunidade Europeia, dois fatos que ele considerou transitórios, relembrando que muitas decisões do presidente norte-americano têm sido barradas no Congresso. “O poder é mínimo comparado à lógica do sistema”, comentou.
André Nahur (primeiro à esquerda) levantou as oportunidades do Brasil em uma economia de baixo carbono
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