Instituto Mamirauá e WWF percorrem rio Tapajós e afluentes para estimar população de botos e verificar as condições ambientais | WWF Brasil

Instituto Mamirauá e WWF percorrem rio Tapajós e afluentes para estimar população de botos e verificar as condições ambientais



03 Setembro 2014   |  
Boto Rosa, Inia geoffrensis, Rio Tapajós, região de Santarem
© WWF-Brasil / Adriano Gambarini
Na semana em que se comemora o Dia da Amazônia, o Instituto Mamirauá e o WWF divulgam os resultados preliminares da expedição realizada para documentar a distribuição e estimar a abundância de botos e tucuxis, também conhecidos como golfinhos amazônicos, da bacia do rio Tapajós.

A equipe de pesquisadores percorreu 577 km a bordo de duas embarcações, utilizadas em dois trechos diferentes do rio. O resultado final pode constituir-se numa importante base de informações para entender e acompanhar a saúde dos rios da bacia do Tapajós, na Amazônia brasileira, inclusive em relação a riscos frente a alterações ambientais, como desmatamento e construção de hidrelétricas.

A Amazônia, maior floresta tropical úmida e o maior sistema de rios do planeta, com mais de 100.000 km de cursos d´água, se estende por nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Os botos e tucuxis são um dos símbolos do território amazônico e até hoje suas populações são pouco conhecidas. A coleta de boas informações é fundamental para se compor estratégias de conservação para essas espécies e o hábitat.

A iniciativa conjunta do Instituto Mamirauá e do WWF, com participação da Fundação Omacha (Colômbia), representa o primeiro estudo visando estimar o tamanho populacional de botos amazônicos na bacia do Rio Tapajós.

“A abundância é um dos parâmetros básicos para se fazer um estudo de viabilidade populacional, para saber o status real da população e projetar se ela pode estar ameaçada ou se vai sobreviver. Junto com outras informações, como por exemplo mortalidade e reprodução, podemos modelar e estimar a probabilidade de extinção a curto, médio ou longo prazo”, afirmou a pesquisadora do Instituto Mamirauá, Miriam Marmontel.

O estudo viabilizará também uma análise sobre o impacto da construção de hidrelétricas na fauna, e seu resultado possibilitará uma discussão com o governo sobre as consequências ambientais, subsidiando melhores decisões. No trecho amostrado estão previstas pelo menos duas grandes construções: a Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, com início previsto para 2018, e a Usina Hidrelétrica Jatobá, com início previsto para 2019, o que afetará todo o sistema ecológico e a dinâmica social das áreas.

Há possíveis sete barragens previstas para o trecho baixo da bacia do rio Tapajós e muitas outras para trechos também importantes a montante. “Este estudo mostra a situação quando nenhuma barragem foi ainda construída na área analisada e servirá como referência de comparação com outras regiões da Amazônia onde já estão instaladas hidrelétricas, podendo apontar riscos para os golfinhos e os ecossistemas aquáticos. Futuramente uma nova amostragem poderá confirmar se houve degradação dessa região”, ressaltou Miriam.

Desde 2006, várias instituições (WWF, WCS, WDCS, Fundação Omacha/Colômbia, Faunagua/Bolívia e Instituto Mamirauá/Brasil, entre outros) vêm realizando esforços para promover mais de 15 expedições para estimar a abundância de golfinhos amazônicos na América do Sul. Até o momento, foram registrados mais de 8.000 golfinhos de quatro espécies e percorridos mais de 6.500 km nos principais rios da Amazônia. Esse esforço visa cobrir outras bacias para comparar como estão as densidades dos botos nos diferentes cursos d’água.

O WWF, com outros parceiros, também acompanha o planejamento e a construção de hidrelétricas na Amazônia por vários anos. Especificamente na bacia do Tapajós, pelo menos há três anos realiza estudos, modelagens e debates com o objetivo de avaliar e mostrar os impactos cumulativos da construção de múltiplas hidrelétricas em uma mesma bacia hidrográfica.

“Os resultados desta primeira expedição na bacia do Tapajós devem servir também para melhor reflexão dos governos, dos cientistas e das comunidades locais e povos indígenas sobre os potenciais impactos de barragens nessa bacia hidrográfica específica, e na Amazônia como um todo. Em uma das mais importantes regiões naturais do mundo, o que se espera é que o planejamento hidrelétrico seja ótimo, responsável do ponto de vista ecológico e democrático, com ampla e transparente discussão e respeito aos direitos das comunidades locais e dos povos indígenas”, afirma Cláudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF.

Logística e metodologia

A expedição foi dividida em duas partes: um trecho do rio Tapajós foi percorrido em barco de Santarém até as corredeiras de São Luiz do Tapajós. Além do rio Tapajós, foram amostrados alguns afluentes, como o rio Tuparí, lago Verde e igarapés laterais ao curso do rio, a bordo de lancha.

Para amostrar acima das corredeiras, a equipe precisou enfrentar 250 km da Transamazônica. O segundo trecho, percorrido também de lancha, amostrou da vila de Penedo, localidade com muitas atividades de garimpo, ao município de Jacareacanga.

Foram avistados, ao longo de todo o percurso, 160 indivíduos de tucuxi (Sotalia fluviatilis) e 112 indivíduos de boto rosa (Inia geoffrensis). Esse número passa por análises estatísticas, que será feita pela pesquisadora Heloise Pavanato, para se obter a densidade e abundância de animais.

A equipe de pesquisadores do Instituto Mamirauá tem utilizado a técnica adaptada para o ambiente fluvial pelos parceiros da Fundação Omacha.

A contagem dos animais é feita segundo o método de amostragem de distâncias da seguinte maneira: o barco se desloca ao longo da margem, a uma distância de 100 metros da mesma, sempre que possível, subindo o rio em direção à nascente. É amostrada uma largura de 200 metros, sendo 100 metros a bombordo (esquerda) e 100 metros a boreste (direita) da embarcação. São registradas informações como espécie avistada (boto rosa ou tucuxi), tamanho do grupo (que varia por região; nesta amostragem variou de um a nove indivíduos), distância do animal à margem e distância do barco ao animal. Nessa expedição, também foi feito registro fotográfico da margem, para uma caracterização da fitofisionomia, a cada transecção. A cada 2,5 km são coletados dados para caracterizar a fitofisionomia, que pode influenciar o número de animais. O número registrado é corrigido pela probabilidade de detecção, sendo que, quanto mais próximo ao barco, mais fácil a visualização dos animais.

Resultados e recomendações

Durante a expedição, não pode ser comprovada ocorrência de tucuxi acima das corredeiras de São Luiz do Tapajós. A hipótese dos pesquisadores é de que essa espécie não possui tamanho e força para atravessar as corredeiras, só havendo registro do boto rosa, e em densidade reduzida.

Outro fato importante é a corroboração da ocorrência de boto rosa a montante das corredeiras de São Luiz do Tapajós, até o limite de amostragem deste estudo no município de Jacareacanga. De acordo com o mapa da lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN (International Union for Conservation of Nature), a distribuição do boto rosa ocorre até um ponto um pouco acima do município de Itaituba. O recente estudo mostra que a ocorrência ultrapassa essa região, podendo se dar em áreas mais acima do rio Tapajós e nos afluentes, Juruena e Teles Pires.

Os pesquisadores observaram que, ao longo da expedição, o número de indivíduos registrado foi baixo, o que pode significar uma interferência de fatores externos, como a mineração. “Essa é uma região com muitas dragas de mineração, o que pode ser um dos motivos do baixo número registrado”, reforçou a pesquisadora Miriam Marmontel.

A expedição no rio Tapajós foi realizada pelo Instituto Mamirauá e pela Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF, com participação da Fundação Omacha e Instituto Humboldt, e envolveu oito pesquisadores, fotógrafo e cinegrafista, além da equipe de apoio, digitadores e tripulação.

Box: Impactos diretos das barragens na fauna
De acordo com a pesquisadora do Instituto Mamirauá que coordenou o embarque, Heloise Pavanato, a construção das barragens tem consequências diretas na fauna aquática e terrestre e na floresta em si. Para a população de botos, a questão é que não há conhecimento sobre o deslocamento desses animais, o quanto eles conseguem subir e descer o rio. a construção cria uma barreira, segundo a pesquisadora, interferindo nesse deslocamento, isolando indivíduos entre os trechos. Isto reduz a interação entre os animais, podendo levar à diminuição da variabilidade genética, aumentando a susceptibilidade a doenças, o que a longo ou médio prazo pode levar à extinção, em nível local.

Box sobre as espécies
Os botos rosa são espécies carismáticas e ainda pouco conhecidas. Os maiores golfinhos de rio do mundo vivem na Amazônia, e podem chegar a 2,55 metros e a pesar 160 kg. Uma das características que distinguem os botos rosa dos golfinhos marinhos é o pescoço mais flexível e a capacidade de mover a cabeça de um lado a outro, lateralmente, o que lhes confere mais habilidade e agilidade para buscar alimento entre troncos e árvores em partes inundadas da floresta.

Do grupo dos cetáceos, os golfinhos estão no topo de cadeia alimentar. Carnívoros, podem se deslocar por quilômetros nos principais rios, afluentes, lagos e igarapés em busca de seu principal alimento, os peixes. Sua presença indica a saúde dos rios. Também ajudam a controlar a saúde das populações de peixes ao se alimentarem dos mais vulneráveis, contribuindo para o processo de seleção.

Na Amazônia, há uma espécie de tucuxi (Sotalia fluviatilis) e três espécies de boto rosado do gênero Inia distribuídos nas bacias do Orinoco, Amazonas e Araguaia-Tocantins. Inia geoffrensis distribui-se pela bacia amazônica. O golfinho boliviano (Inia boliviensis) ocorre na sub-bacia da Bolívia e chega até Borba, no baixo rio Madeira, no Brasil. Em 2014 foi publicada a primeira descoberta em 100 anos de uma nova espécie de golfinho de rio: Inia araguaiaensis, que é restrito à área da bacia do Araguaia-Tocantins, no Brasil.

As ameaças à população dos botos amazônicos são a contaminação por mercúrio causada pela mineração, a caça aos animais para serem usados como isca na pesca de um bagre necrófago chamado piracatinga (Calophysus macropterus), e a morte acidental em redes de pesca.

Nota:
O Dia da Amazônia é comemorado em cinco de setembro, data em que foi publicada a Lei n° 582, em 1850, que criou a Província do Amazonas, separando a região da então Província do Pará.
Boto Rosa, Inia geoffrensis, Rio Tapajós, região de Santarem
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