Moradores da Barra de São Manoel (AM) participam de oficina sobre castanha e turismo



02 Outubro 2013  | 
Por Jorge Eduardo Dantas 
 
Apuí (AM) - Que tipo de atividades econômicas e sustentáveis é possível viabilizar em uma das comunidades mais remotas e longínquas da Amazônia?
 
Em busca da resposta para esta pergunta, o WWF-Brasil, em conjunto com várias instituições parcerias, promoveu, no fim de setembro, a I Oficina sobre Castanha e Turismo. O evento aconteceu na comunidade da Barra de São Manoel, localizada em Apuí, Sul do Amazonas, a 453 quilômetros de distância de Manaus.
 

Community Barra of the San Manuel in Brazil
 
A Oficina durou dois dias e contou com a participação de 30 pessoas, entre extrativistas, pescadores, pilotos de voadeiras (pequenas embarcações da Amazônia), guias turísticos, educadores, donas de casa, estudantes, líderes e representantes comunitários. 
 
Também estiveram presentes técnicos do WWF-Brasil, os gestores das Unidades de Conservação do Mosaico do Apuí e instituições parceiras da iniciativa, como as empresas Estação Gabiraba (PA), Inovatech (BA) e Mapsmut (MT). 
 
Na ocasião, eles refletiram sobre as possibilidades de se estruturar a cadeia produtiva da castanha na comunidade – ou seja, como extrair e beneficiar este recurso de modo a gerar renda para as famílias produtoras e garantir a sustentabilidade da região. 
 
Definindo prioridades
 
Outro assunto de discussões foi como viabilizar um programa de turismo de base comunitária, que contemple várias atividades: a visita guiada a belezas naturais das redondezas como cachoeiras, praias e cavernas; a venda de artesanato a turistas; e a imersão em experiências como o trabalho na roça, o preparo da farinha amazônica e a vivência da rotina do vilarejo.
 
A oficina contou com momentos de interação entre os participantes, palestras expositivas e trabalhos em grupo. Ao final do processo, os comunitários, juntamente com os técnicos do WWF-Brasil e os facilitadores da oficina, elegeram prioridades e definiram os temas que querem que sejam desenvolvidos no futuro. Os técnicos vão elaborar um plano de ação e discutí-lo, posteriormente, com a comunidade. 
 
De acordo com o analista de conservação do WWF-Brasil Samuel Tararan, a oficina é o início de um trabalho que será desenvolvido no médio e longo prazo. “Neste momento, realizamos um alinhamento, um levantamento de interesses e de desejos da população local. Queremos promover a geração de renda sustentável e verificar a possibilidade do desenvolvimento do potencial ecoturístico desta área”, explicou.
 
Samuel disse que o debate sobre a castanha foi realizado a pedido da própria comunidade; e que as atividades discutidas constam nos planos de manejo do Mosaico do Apuí e do Parque Nacional do Juruena, reforçando a importância do investimento feito nesses assuntos.  

Outras oportunidades 

O professor Cleudo Macuya Miranda, 30, leciona na Escola Municipal Primavera, a única escola existente na Barra de São Manoel. Ele contou que o grande benefício de uma oficina como essa é a oportunidade de vislumbrar outras atividades econômicas que não apenas o turismo de pesca esportiva, segmento econômico forte naquela área.
 
“Existe uma série de atividades aqui que podemos explorar, como a avicultura e a psicultura, por exemplo. Temos como produzir e vender uma série de coisas. O artesanato, por exemplo, que já temos aqui, ainda é muito bruto, inacabado, mas é uma oportunidade. Tudo depende da nossa boa vontade e esforço”, afirmou o educador.  
  
Segundo outra das lideranças da comunidade, Antônio Fábio Fernandes, o “Juruna”, a oficina traz “informação” e “entendimento”. 
 
“O poder público não vem aqui, não chega nunca. Então quanto mais conhecimento tivermos, melhor. Com eventos como esse nós nos educamos sobre temas como Meio Ambiente, sobre conservação, conhecemos experiências comunitárias que deram certo em outros lugares. Oficinas desse tipo trazem conhecimento técnico e especializado que não temos aqui”, disse Juruna.  
 
Entre três estados
 
A Barra de São Manoel é uma comunidade centenária, surgida em 1901, resultado dos fluxos migratórios ocorridos no interior da Amazônia durante o ciclo da borracha. Localizada estrategicamente no encontro dos rios Juruena e Teles Pires, ela foi, em décadas passadas, um importante entreposto para o comércio da borracha.
  
Grande parte de seus habitantes trabalha num pousada instalada naquela área como piloteiros, vigilantes, cozinheiras, arrumadeiras e guias de pesca. Outros são extrativistas e um número muito reduzido é funcionário público.
 
A comunidade está situada entre os municípios amazonenses de Apuí e Maués, no Sul do Amazonas – o limite que divide as duas cidades corta a comunidade ao meio. A Barra está situada também em frente à confluência entre os rios Teles Pires e Juruena, que se unem e formam o Tapajós – por isso, ali é possível acessar três dos mais importantes rios da Bacia Amazônia.
 
Além disso, a Barra de São Manoel encontra-se ainda no limite entre os estados do Amazonas, Mato Grosso e Pará. Os serviços básicos, como saúde e segurança, vêm dos municípios de Apuí (AM) e Jacareacanga (PA), que dividem os custos e a oferta de equipamentos e profissionais. 
 
Mosaico da Amazônia Meridional
 
Promover a oficina naquele local faz parte de uma estratégia mais ampla do WWF-Brasil que, em conjunto com outras organizações, busca promover alternativas econômicas sustentáveis na região do Mosaico da Amazônia Meridional (MAM).
 
 
A oficina na Barra de São Manoel contou com o apoio do Centro Estadual de Unidades de Conservação da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Ceuc/SDS); e das empresas Estação Gabiraba, Inovatec – Consultoria e Gestão Administrativa e Mapsmut.
 
A Oficina está alinhada com diversos outros trabalhos do WWF-Brasil, cujo objetivo é levar alternativas econômicas sustentáveis à região do Mosaico da Amazônia Meridional (MAM)
O WWF-Brasil busca levar alternativas econômicas sustentáveis à região do Mosaico da Amazônia Meridional (MAM)
© WWF-Brasil / Jorge Eduardo Dantas Enlarge
A Barra de São Manoel fica em frente ao rio Tapajós, entre o Amazonas e o Mato Grosso
A Barra de São Manoel fica em frente ao rio Tapajós, entre o Amazonas e o Mato Grosso
© WWF-Brasil / Jorge Eduardo Dantas Enlarge
Divididos em grupos, os participantes da oficina refletiram sobre a viabilidade de trabalhar com a cadeia produtiva da castanha e o turismo de base comunitária
Os participantes da oficina refletiram sobre a viabilidade de trabalhar com a cadeia produtiva da castanha e o turismo de base comunitária
© WWF-Brasil / Jorge Eduardo Dantas Enlarge
Oficina contou com 30 participantes entre pescadores, extrativistas, estudantes, donas de casa e
Oficina contou com 30 participantes entre pescadores, extrativistas, estudantes, donas de casa e "piloteiros"
© WWF-Brasil / Jorge Eduardo Dantas Enlarge

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