Escolas municipais de Campo Grande (MS) têm carne orgânica na merenda



30 Junho 2010  | 

Por Geralda Magela
WWF-Brasil

Campo Grande (MS) - São 9h da manhã. Logo na entrada da Escola Professor Vanderlei Rosa de Oliveira, no Bairro Novo Maranhão o cheiro de comida caseira, com tempero bom, igual à que a mãe da gente faz, mostra que chegamos no momento certo. É hora do lanche. Na sala do Pré-B da professora Walkíria Santini, as crianças saboreiam com gosto a merenda servida pela escola: sanduíche de pão com carne. O lanche aparentemente trivial é na verdade uma inovação no Brasil em se tratando de merenda escolar. É feito com carne orgânica certificada.

A escola é uma das 130 instituições públicas de ensino da capital sul-matogrossense que, desde abril deste ano, contam com a carne orgânica no cardápio. O produto é proveniente de fazendas de pecuária orgânica certificada do Pantanal, ligadas à Associação Brasileira de Pecuária Orgânica (ABPO), projeto que tem o apoio do WWF-Brasil.

A novidade foi possível graças a uma licitação realizada pela prefeitura no início deste ano para aquisição de alimentos para a merenda escolar. Entre os critérios de seleção dos fornecedores, foi incluída a exigência de que o produto fosse orgânico. Por mês, a rede municipal de ensino compra 11 mil quilos de carne orgânica para atender a 70 mil alunos das escolas públicas.

O Superintendente de Abastecimento Alimentar do município, Danilo Medeiros Figliorino, explica que a inclusão da carne orgânica teve por objetivo oferecer aos estudantes um alimento saudável e produzido com respeito ao meio ambiente.  “No Mato Grosso do Sul, o consumo da carne bovina é uma tradição. Com a opção pela carne orgânica, também buscamos valorizar a produção regional”, destaca Figliorino.

Produção e conservação do Pantanal

Para o coordenador do Programa Cerrado-Pantanal do WWF-Brasil, Michael Becker, a inclusão da carne orgânica nas escolas de Campo Grande é uma iniciativa muito positiva. “É um estímulo a mais à produção sustentável do Pantanal”, afirma. 

Desde 2003, a ONG apoia o trabalho da pecuária orgânica certificada no Pantanal.  O  objetivo é buscar alternativas que permitam aliar a atividade produtiva da pecuária e a conservação dos recursos naturais do bioma. A atuação com o segmento da pecuária é fundamental para as ações de conservação no Pantanal, uma vez que essa é uma das principais atividades econômicas da região. "Estimular iniciativas como a produção orgânica certificada é uma maneira de minimizar impactos promover a conservação do bioma e da Bacia do Alto Paraguai, onde ele está situado", destaca Becker.

O presidente da ABPO, Leonardo Leite de Barros, elogia a iniciativa da prefeitura de Campo Grande. "Iniciativas como esta ajudam a dar mais visibilidade ao segmento orgânico e valorizam os produtores que  estão comprometidos com a sustentabilidade", ressalta.  Para ele, além do poder público, o consumidor também tem um papel importante nesse processo. Ao eleger um produto de origem certificada, está contribuindo para a sustentabilidade ambiental do país", destaca.

Novidade mais que aprovada

Na escola Vanderlei Rosa, que tem 1.872 alunos em três turnos, já era comum a utilização de verduras e legumes orgânicos na merenda escolar. Mas carne era novidade. “Eu nem sabia que existia e como era”, diz a diretora Angela Maria Faustino de Oliveira.  No entanto, ela gostou muito do produto e quis saber mais sobre ele.  “Ao chegar em  casa, perguntei ao  meu filho que é veterinário. Ele me explicou que é uma carne de animais criados em  fazendas certificadas, sem o uso de medicamentos, nem agrotóxicos”, afirma a diretora.

A merendeira Raimunda Silva Pereira, que há nove anos é uma das responsáveis por preparar a merenda da escola, também aprovou a carne orgânica. Ao lado da colega Maria Hervaz, ela conta que logo no início perceberam a diferença. “Mesmo sendo carne moída, vimos que tinha um aspecto muito bom, com pouca gordura e até o cheiro era diferente”, conta. Mas não sabiam muito bem o que era carne orgânica. A novidade aguçou a curiosidade delas. Alguns dias depois, viram na TV uma reportagem falando sobre o assunto. “Aprendemos que o gado é criado com cuidados especiais, fica solto no pasto, a terra não tem produtos químicos”, explica a merendeira. 

Raimunda, que trabalha há 24 anos como merendeira e gosta de inventar sempre novos pratos, aproveitou a boa qualidade da carne para incrementar o cardápio da merenda. Além do sanduíche servido durante a nossa visita, já fez carne com macarrão, com arroz, almôndega e até farofa. Embora essa repórter não coma carne e, por isso, não tenha experimentado, dava para ver que a novidade foi mais do que aprovada pelas crianças. Na turma da professora Walkíria, alguns já estavam repetindo pela terceira vez.

Educação ambiental na prática

A novidade não só agradou ao paladar das crianças como também forneceu elementos para a professora Walkíria incrementar as aulas. Ela explica que aproveita a merenda para trabalhar com as crianças temas transversais como  alimentação saudável, higiene e conservação ambiental. “Dá para ver o resultado pela postura das crianças”, diz a professora que tem 10 anos de trabalho dedicados ao ensino infantil.

Valkíria conta que busca sempre trazer a realidade regional para as aulas e usar exemplos práticos para ajudar no aprendizado das crianças. Alguns dias atrás, levou a turma a um centro de reabilitação de animais, que fica perto da escola. A intenção foi aproximá-los dos animais que são típicos da região e trabalhar com eles, de maneira prática, o respeito aos animais e a importância de conservar a natureza.

Amanda, de 5 anos, conta que adorou ver os bichos. “Vi a onça, a cobra grande, o macaco, o tucano, o tamanduá”, enumera. Diz que não se deve maltratar os animais. “Eles são muito importantes para a natureza e vivem na floresta”, afirma a serelepe Amanda.  O coleguinha Antônio Joelson, também de 5  anos,  entra na conversa e  revela o que sabe sobre a  importância de conservar a natureza. “Não podemos deixar acabar com a floresta porque lá é a casa dos bichos”, resume.

O que é carne orgânica?

A carne orgânica certificada é uma carne produzida a partir de um sistema produtivo ambientalmente correto, socialmente justo e economicamente viável. Este sistema produtivo passa por auditoria e certificação, garantindo que carne é produzida da maneira mais natural possível, isenta de resíduos químicos e com preocupação socioambiental.

A carne orgânica é produzida em fazendas de criação de gado certificadas, que seguem normas rígidas de certificação orgânica, que determinam um sistema de produção ambientalmente correto. Estas normas exigem primeiramente que os produtores cumpram a legislação ambiental, o que garante a proteção das áreas naturais obrigatórias que devem existir dentro de uma propriedade rural, tais como as matas nas beiras dos rios.

Além do cumprimento da legislação ambiental, a certificação exige a proteção de nascentes e de corpos d`água, proíbe a utilização de fogo no manejo das pastagens, e por ser um sistema que proíbe o uso de agrotóxicos e químicos, evita a contaminação do solo e dos recursos hídricos localizados dentro da unidade produtiva.

 

O sanduíche de carne orgânica foi aprovado pelas crianças da Escola Vanderlei Rosa de Oliveira.
© WWF-Brasil/Geralda Magela Enlarge
A professora Walkíria Santini aproveitou a novidade da carne orgânica para falar sobre conservação ambiental com os alunos.
© WWF-Brasil/Geralda Magela Enlarge

Comentários

blog comments powered by Disqus