WWF-Brasil – Este prêmio está sendo entregue por ocasião da passagem da Expedição Darwin pelo Brasil. Nesse contexto, qual é a sua percepção da ameaça do aquecimento global às espécies do hemisfério sul?
Carlos Nobre – É uma felicidade muito grande poder participar da celebração dessa viagem. Tudo está ligado. Darwin trouxe uma imensa luz, muitos classificam a teoria da evolução de Darwin como um dos três fatos científicos mais importantes, além da descoberta do átomo e da teoria da relatividade.
De fato, Darwin trouxe uma visão do mundo, da natureza, que revolucionou a ciência e que colocou os seres humanos realmente no lugar de onde nós nunca deveríamos ter nos retirado: somos apenas um animal a mais nessa imensa teia da natureza, porém dotados de faculdades muito especiais como a inteligência e a cognição.
Muito da crise ambiental que vivemos hoje está relacionada com o fato de que talvez nós não tenhamos entendido a teoria da evolução na sua profundidade.
Continuamos a ser antropocêntricos, colocando a satisfação material da espécie Homo sapiens acima de qualquer outra consideração. Fugimos muito do equilíbrio biológico, que é o que sempre regulou a evolução biológica e a interação entre as espécies.
Se Darwin fosse vivo, ficaria muito envergonhado com o aquecimento global, pois estamos às vésperas de uma grande extinção de espécies, de um cataclisma, provocado, principalmente, pela nossa ação no planeta.
Já houve grandes cataclismas, fenômenos completamente fora do controle humano - por exemplo, vulcanismo, grandes meteoritos que se chocaram com a Terra - na história da evolução do planeta, mas nada provocado pelo homem como agora.
As estimativas hoje são de que, se o aquecimento continuar sem controle, no final do século, até 40% de todas as espécies do planeta estarão em risco de extinção. E mesmo que o aquecimento seja controlado abaixo dos dois graus, ainda assim, de 10% a 15% das espécies correm o risco de desaparecer.
O aquecimento global não discrimina hemisférios. Porém, aqui [hemisfério sul] há mais oceanos. E as espécies oceânicas não estão a salvo.
Há uma mudança rápida da temperatura do oceano e a acidez dele está aumentando devido à injeção de gás carbônico (CO2), o mesmo que lançamos em excesso na atmosfera. Uma parte vai para o oceano e isso aumenta a acidez das águas, o que causa ameaça à vida de inúmeras espécies marinhas.
O aquecimento global também modifica muito os padrões climáticos e as espécies continentais. As plantas e os animais que delas dependem estão sob risco. Já há documentação científica de que alguns destes animais podem já ter desaparecido.
Então, o aquecimento global põe em xeque a sobrevivência de milhares de espécies. Mesmo que tenhamos êxito em controlá-lo, já se tornou inevitável o risco para um grande número de espécies.
Todos os esforços agora devem procurar manter e salvar o maior número das espécies que estão ameaçadas. Não será possível salvar todas, infelizmente. Já passamos do ponto de retorno, mas um esforço global deve ser feito para recuperar o máximo de espécies possível.
WWF-Brasil – Como o senhor vê o esforço dos países para alcançar o acordo global? O senhor está otimista?
Carlos Nobre – Estou moderadamente otimista de que os líderes não faltarão a este momento de responsabilidade. Os compromissos a serem firmados na Conferência de Clima em Copenhague devem ser de grande alcance. Este encontro não pode nos decepcionar.
Porém, neste momento não há possibilidade concreta de prever qual será o desfecho do encontro. Esta é apenas minha expectativa.
Acho que podemos ter alguma esperança de que os líderes dos principais países desta negociação realmente participem da Conferência de Clima. É um encontro que demanda a presença dos grandes líderes mundiais.
Quem sabe até, animado com o Prêmio Nobel da Paz que acabou de receber, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se anime a participar pessoalmente e a liderar este encontro internacional.
Os EUA têm um papel de liderança mundial em praticamente todas as áreas. É impossível imaginar um avanço das negociações, que demandam uma enorme redução das emissões, sem uma liderança muito marcante do maior emissor do mundo, que, historicamente, são os Estados Unidos.
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Carlos Nobre – É uma felicidade muito grande poder participar da celebração dessa viagem. Tudo está ligado. Darwin trouxe uma imensa luz, muitos classificam a teoria da evolução de Darwin como um dos três fatos científicos mais importantes, além da descoberta do átomo e da teoria da relatividade.
De fato, Darwin trouxe uma visão do mundo, da natureza, que revolucionou a ciência e que colocou os seres humanos realmente no lugar de onde nós nunca deveríamos ter nos retirado: somos apenas um animal a mais nessa imensa teia da natureza, porém dotados de faculdades muito especiais como a inteligência e a cognição.
Muito da crise ambiental que vivemos hoje está relacionada com o fato de que talvez nós não tenhamos entendido a teoria da evolução na sua profundidade.
Continuamos a ser antropocêntricos, colocando a satisfação material da espécie Homo sapiens acima de qualquer outra consideração. Fugimos muito do equilíbrio biológico, que é o que sempre regulou a evolução biológica e a interação entre as espécies.
Se Darwin fosse vivo, ficaria muito envergonhado com o aquecimento global, pois estamos às vésperas de uma grande extinção de espécies, de um cataclisma, provocado, principalmente, pela nossa ação no planeta.
Já houve grandes cataclismas, fenômenos completamente fora do controle humano - por exemplo, vulcanismo, grandes meteoritos que se chocaram com a Terra - na história da evolução do planeta, mas nada provocado pelo homem como agora.
As estimativas hoje são de que, se o aquecimento continuar sem controle, no final do século, até 40% de todas as espécies do planeta estarão em risco de extinção. E mesmo que o aquecimento seja controlado abaixo dos dois graus, ainda assim, de 10% a 15% das espécies correm o risco de desaparecer.
O aquecimento global não discrimina hemisférios. Porém, aqui [hemisfério sul] há mais oceanos. E as espécies oceânicas não estão a salvo.
Há uma mudança rápida da temperatura do oceano e a acidez dele está aumentando devido à injeção de gás carbônico (CO2), o mesmo que lançamos em excesso na atmosfera. Uma parte vai para o oceano e isso aumenta a acidez das águas, o que causa ameaça à vida de inúmeras espécies marinhas.
O aquecimento global também modifica muito os padrões climáticos e as espécies continentais. As plantas e os animais que delas dependem estão sob risco. Já há documentação científica de que alguns destes animais podem já ter desaparecido.
Então, o aquecimento global põe em xeque a sobrevivência de milhares de espécies. Mesmo que tenhamos êxito em controlá-lo, já se tornou inevitável o risco para um grande número de espécies.
Todos os esforços agora devem procurar manter e salvar o maior número das espécies que estão ameaçadas. Não será possível salvar todas, infelizmente. Já passamos do ponto de retorno, mas um esforço global deve ser feito para recuperar o máximo de espécies possível.
WWF-Brasil – Como o senhor vê o esforço dos países para alcançar o acordo global? O senhor está otimista?
Carlos Nobre – Estou moderadamente otimista de que os líderes não faltarão a este momento de responsabilidade. Os compromissos a serem firmados na Conferência de Clima em Copenhague devem ser de grande alcance. Este encontro não pode nos decepcionar.
Porém, neste momento não há possibilidade concreta de prever qual será o desfecho do encontro. Esta é apenas minha expectativa.
Acho que podemos ter alguma esperança de que os líderes dos principais países desta negociação realmente participem da Conferência de Clima. É um encontro que demanda a presença dos grandes líderes mundiais.
Quem sabe até, animado com o Prêmio Nobel da Paz que acabou de receber, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se anime a participar pessoalmente e a liderar este encontro internacional.
Os EUA têm um papel de liderança mundial em praticamente todas as áreas. É impossível imaginar um avanço das negociações, que demandam uma enorme redução das emissões, sem uma liderança muito marcante do maior emissor do mundo, que, historicamente, são os Estados Unidos.
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