Pegada Ecológica das cidades é tema de debate na USP | WWF Brasil

Pegada Ecológica das cidades é tema de debate na USP



13 Abril 2011   |  
No debate, foram discutidos os potenciais da Pegada Ecológica como ferramenta de mobilização e de gestão para as cidades
© WWF-Brasil/Geralda Magela


Por Geralda Magela

O estudo da Pegada Ecológica de Campo Grande (MS),  divulgado pelo WWF-Brasil e pela prefeitura da capital sul-mato-grossense na passada, está abrindo um novo leque de discussões, com o envolvimento do setor acadêmico e de instituições que atuam com as empresas. Nesta quarta-feira (13), a experiência foi apresentada na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEAUSP).

O evento foi organizado pelo professor do Departamento de Economia da FEAUSP, Ricardo Abramovay, e teve a participação de professores, pesquisadores, estudantes e de instituições que atuam com o segmento empresarial.

O trabalho da Pegada Ecológica de Campo Grande foi realizado pelo WWF-Brasil em parceria com a prefeitura da cidade, Global Footprint Network (GFN), a empresa social ecosSISTEMAS e a Universidade Anhanguera. O objetivo foi calcular – a partir da análise dos hábitos de consumo da população campo-grandense – a Pegada Ecológica da cidade e usar os resultados como ferramenta de mobilização e de gestão ambiental.

O levantamento foi apresentado na FEAUSP pelo coordenador do Programa Pantanal-Cerrado do WWF-Brasil, Michael Becker, e pelo diretor da ecosSISTEMAS, Fabrício de Campos. O Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Campo Grande, Marcos Cristaldo,  também foi um dos expositores.

Participaram como debatedores os professores do Departamento de Economia da FEAUSP, do Núcleo de Economia Socioambiental (NESA), José Eli da Veiga e Ricardo Abramovay; o professor Emérito da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris, Ignacy Sachs;  e Paulo Itacarambi, do Instituto Ethos.

Pegada Ecológica - A Pegada Ecológica é uma  metodologia de contabilidade ambiental que avalia, de um lado, o consumo e do outro a capacidade de recursos naturais disponíveis no planeta. O cálculo já é feito para os países e começa a ser realizado também em algumas cidades do mundo. No Brasil, Campo Grande é a primeira cidade a ter esse cálculo.

O estudo avaliou os hábitos de consumo da população campo-grandense  e apontou uma pegada ecológica de 3,14 hectares globais por pessoa. Os resultados também mostraram que o maior consumo está relacionado aos itens de alimentação, com 45% da pegada, destacando-se o consumo de carne.

Durante a apresentação, o Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Campo Grande, Marcos Cristaldo, disse que os resultados do estudo ajudaram a clarear aspectos relacionados ao consumo da cidade, que não eram conhecidos. Alguns chegaram a causar surpresa.  O consumo de energia elétrica acima da média brasileira foi um desses pontos, assim como o de carne. “Com esses dados, podemos nos planejar melhor e direcionar as políticas públicas para ações que ajudem a reduzir impactos nessas áreas”. destacou.

Michael Becker destacou que o cálculo da pegada de Campo Grande é um passo importante. “Para nós, a Pegada Ecológica é um elemento agregador, uma ferramenta de gestão ambiental. Ela  serve como parâmetro  para discutir as estratégias de mitigação que serão adotadas visando a redução de  impactos”, disse.

No entanto, Becker avaliou  que ainda existe muito a ser feito. “Temos que caminhar e implementar as estratégias  de mitigação para que, quando fizermos uma nova medição, possamos verificar se houve mudanças, se os impactos baixaram”, enfatizou.

Para ele, pelo fato de Campo Grande ser uma cidade com perfil muito parecido com tantas outras no Brasil, ela pode servir de modelo para outras cidades.

Potenciais da Pegada Ecológica -
Após a apresentação do estudo, foram discutidos os potenciais da pegada ecológica como indicador de sustentabilidade, ferramenta para a gestão pública, instrumento de mobilização da sociedade civil e orientador sobre o papel das empresas e cadeias produtivas sustentáveis. 

O professor Ricardo Abramovay elogiou o pioneirismo do estudo realizado em Campo Grande. De acordo com ele, o alto consumo está conduzindo o mundo a uma “rota suicida” e para evitar que isso aconteça, é fundamental conhecer, diagnosticar. “Considero essa iniciativa  muito importante. Estamos abertos a  participar desse processo de mobilização para que possamos enfrentar esse problema”, afirmou.

O envolvimento do setor acadêmico representa um passo importante nesse processo, tanto no que se refere ao direcionamento de pesquisas para essa área quanto na realização de estudos que possam ampliar esse trabalho para outras cidades. 

Uma possibilidade de cooperação da FEAUSP com esse trabalho é a abertura de uma área de pesquisa com os alunos da faculdade para desenvolver o   tema da Pegada Ecológica “ Fazer uma contabilidade ambiental é um desafio para a economia”, ressaltou Abramovay.

O professor José Eli da Veiga,  considerou positivo o trabalho da Pegada Ecológica de Campo Grande. Entretanto, para ele, o cálculo e alguns conceitos utilizados na metodologia  ainda precisam ser melhor entendidos. “O estudo serve como um ponto de partida para ampliar as discussões. Certamente vai  despertar o interesse dos  estudantes para que comecem a fazer parte desse trabalho”, destacou.

O professor emérito da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais de Paris, Ignacy Sachs, disse que a pegada ecológica é um conceito novo que apresenta um serviço importante. No entanto, será preciso aprofundar o estudo da ferramenta, ver seus potenciais e limites e como esse conceito  se encaixa com outros. “Esse é um belo desafio para a Universidade”, salientou o professor.

O diretor da ecosSistemas, Fabrício Campos, responsável pela análise dos dados e pela aplicação da metodologia, disse que  a contribuição do setor acadêmico é essencial para o aprimoramento do trabalho. “A Pegada Ecológica não é uma ferramenta estática. Ela precisa ser testada e ajustada constantemente e a discussão no âmbito da academia ajuda a aperfeiçoá-la cada vez mais”, afirmou.

Participação das empresas - Outro segmento importante para o trabalho com Pegada Ecológica são os empresários. Paulo Itacarambi, do Instituto Ethos, disse que a Pegada Ecológica pode ser usada pelas empresas para mobilizar a sociedade e orientar suas cadeias produtivas. Para ele, uma forma de contribuir é por meio da inovação. “As empresas podem investir em tecnologias que aumentem a biocapacidade e também reduzam o consumo”, destacou.

De acordo com ele, outra contribuição que pode ser dada pelas empresas é influenciar mudanças das políticas públicas, apresentando propostas e cobrando dos governos que também façam a sua parte.

O  que é pegada ecológica?

A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta.
Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano.  Já a bioacapacidade, representa a capacidade dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano.

Sendo assim, a Pegada Ecológica contabiliza os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e fibras, energia renovável etc), segmentados Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída e Energia e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2).

O resumo executivo do estudo da Pegada Ecológica de Campo Grande  está disponível no site do WWF-Brasil. http://www.wwf.org.br/?28163/Campo-Grande-calcula-sua-pegada-ecolgica

 

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